Passos apressados, o cidadão atravessa trecho do Calçadão de Londrina por volta das 23 horas, depois de uma jornada de trabalho iniciada pouco antes do almoço e ainda sem janta. O percurso, na espécie de triângulo formado pelas ruas Santa Catarina, Minas Gerais e Rio de Janeiro, já é conhecido. É por onde o trabalhador segue todos os dias no retorno do trabalho para casa. Meses antes, ele atravessava a praça que margeia a Catedral Metropolitana, mas decidiu encompridar o caminho depois de sofrer uma tentativa de assalto em frente à Biblioteca Pública. Então resolveu dar a volta margeando a Concha Acústica e passando pelo módulo policial em frente ao Edifício Júlio Fuganti.
Mas nem a pernada a mais garantiu segurança. Naquela noite, uma terça-feira, o cidadão já esperava que o jovem, com todas as evidências de entorpecimento por drogas, o abordasse como fazia todos os dias:
- Me dá um passe de ônibus, por favor, eu não tenho como voltar para casa e moro longe, lá no Violin.
A cada dia era um bairro diferente, embora o rapaz fosse o mesmo. E o cidadão conseguia se desvencilhar do pedinte, às vezes apenas dizendo firmemente que não tinha passe ou dinheiro, outras vezes se obrigando a ser mais áspero. Naquela noite de terça, porém, os ânimos estavam exaltados para ambos os lados. Após receber uma recusa, o pedite descarregou sua raiva com um safanão. O cidadão revidou, com um pontapé pouco abaixo da cintura.
O que se seguiu foi uma troca de xingamentos, com o pedinte recorrendo a uma pedra retirada do petit-pavet do Calçadão. Ainda assim, o cidadão se despojou da razão e foi para cima do pedinte, imaginando:
- Se eu recuo agora, ele me atira a pedra. Tenho que mostrar firmeza.
A expectativa era de que algum dos frequentadores dos dois quiosques daquele trecho retirassem a pedra das mãos do pedinte. Qual nada. O que ele concluiu foi o contrário, quando alguns desses, depois de alguns copos de cerveja, gritaram:
- Aí, cara, dá nele. Vai, quebra...
Então o cidadão concluiu, depois do pedinte ter desistido da pedra e ambos terem tomado cada um a sua direção, que o perigo não são as pessoas que, desviadas por drogas ou por um dia cansativo de trabalho, descarregam revoltas com safanões ou com pontapés. Os perigosos são aqueles que se omitem dos acontecimentos por fazerem da violência um espetáculo, para ser assistido da mesa de um quiosque.

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