Operários da construção voltam à aula
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quarta-feira, 18 de novembro de 1998
Lúcio Horta 
O servente João Batista Rodrigues de Almeida, hoje com 39 anos, até que ficou com vontade de acompanhar os amigos e ir todo dia para a escola, quando ainda era criança. Mas não houve jeito: o pai preferia que ele trabalhasse na roça, para ajudar a família, e o impediu de frequentar os bancos escolares. O primeiro contato com lápis e caderno veio somente aos 19 anos, quando ele se matriculou no Mobral (sistema de alfabetização do Governo Federal, já extinto). Não ficou muito tempo. Na verdade, hoje eu só sei escrever mesmo o meu nome. E só, atesta.
João Batista acredita que a partir do ano que vem a vida dele e de centenas de trabalhadores da construção civil de Londrina pode mudar. Eles vão participar do projeto Construindo o Cidadão, uma iniciativa do Sindicato das Indústrias da Construção Civil (Sinduscon Norte) e Sindicato e Federação dos Trabalhadores e realizado através do Sesi, CES-UEL e Apeart. Lançado oficialmente ontem de manhã, na sede do Sinduscon, o programa conta ainda com o apoio, entre outras entidades, da Secretaria Municipal de Educação, Núcleo Regional de Educação e da Folha de Londrina/Folha do Paraná. Participaram da solenidade Clóvis de Souza Coelho (Sinduscon Norte), Denilson Pestana (Sintracon -Londrina), José Cavichiolli (Fiep), Carlos Roberto da Cunha (Fetraconspar), Dinah Planski (Sesi), José Carlos Salgueiro (comissão de escolaridade -Sinduscon), e Ademir Dias (Folha de Londrina/Folha do Paraná).
Inédito na região, o objetivo do projeto é estimular o estudo entre os trabalhadores do setor, da 1ª a 8ª série do primeiro grau. Acreditamos que pelo menos 1,5 mil trabalhadores de Londrina voltem a estudar a partir do ano que vem, o que daria 40 salas de aula, diz o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Londrina, Denilson Pestana. Segundo ele, a estimativa é que pelo menos 20% das cerca de 3,5 mil pessoas que trabalham na construção civil são analfabetos; e a grande maioria ainda não concluiu o primeiro grau.
As inscrições vão até o dia 15 de dezembro. As próprias empresas vão pagar os custos com professor, transporte e material didático - entre R$ 20,00 e R$ 25,00 por mês para cada trabalhador. Até ontem quase mil trabalhadores já tinham feito a inscrição.
O objetivo é dar uma nova perspectiva de vida para esses trabalhadores, inclusive de ascensão profissional. Hoje, tem mais chances profissionais as pessoas mais capacitadas, acrescenta Pestana. A opinião é compartilhada pelo presidente do Sinduscon, Clóvis Souza Coelho. Esse projeto é muito importante porque valoriza o cidadão. E com um profissional mais qualificado, o serviço se torna mais adequado, diz.
Clóvis Coelho comenta que em dois anos é possível acabar com o analfabetismo na construção civil na cidade - isso com a participação pelo menos das 50 maiores empresas do setor na cidade. Na sequência, a idéia é estender o projeto para toda a base territorial atendida pelo Sinduscon de Londrina, que vai de Jacarezinho até Apucarana. Além disso, ele afirma, entidades ligadas ao setor em outras regiões do estado já manifestaram interesse em conhecer o projeto.
Para o servente João Batista Rodrigues, participar do projeto representa a possibilidade de uma nova fase na vida. Para ter uma profissão na vida é preciso ter leitura. Então o negócio, até hoje, foi mesmo ser servente, porque faltava o estudo. Quero ver se dessa vez vai dar para estudar e tentar ter uma profissão.


