Operários acampam em frente à Encol
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terça-feira, 12 de agosto de 1997
Lucília Okamura 
Londrina
Josoé de CarvalhoNecessidadeJosé de Oliveira está sobrevivendo com a cesta básica doada pelos amigos: falta dinheiro até para o feijãoFuncionários da construtora Encol estão acampados em frente à empresa desde anteontem, protestando contra o atraso nos salários. Segundo eles, a empresa não efetua o pagamento dos salários e dos vales-compras desde abril. Esta não é a primeira vez que os 185 trabalhadores da construção civil ligados à empresa protestam contra atraso nos salários.
Ontem à tarde, cerca de 50 funcionários estavam em frente à empresa, localizada na avenida Juscelino Kubitscheck (área central). Segundo o presidente do Sindicato dos Empregados na Construção Civil, Denilson Pestana, os trabalhadores chegam às 7 horas e só vão embora às 18 horas. Não vamos sair daqui até a empresa encontrar uma solução, afirma.
Denilson Pestana relata que a crise econômica na Encol se agravou no início deste ano, quando os salários começaram a atrasar. O último protesto realizado pelos trabalhadores por causa disso foi em junho. Desta vez, segundo o presidente do sindicato, a Encol não efetua o pagamento dos trabalhadores há quatro meses. Cada funcionário recebe em média R$ 300,00. O vale-compra é de R$ 45,00. O presidente do sindicato afirma ainda que a empresa não recolhe o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) dos trabalhadores desde agosto de 1995.
Devido ao protesto que teve início anteontem, Denilson Pestana diz que a empresa liberou ontem R$ 13 mil. O dinheiro foi distribuído para 68 trabalhadores - cada um recebeu R$ 190,00. Fizemos um cadastro com os funcionários que estavam ontem (anteontem) em frente à empresa, explica.
Ontem, no final da tarde, a empresa comunicou ao sindicato que irá liberar mais recursos para pagar R$ 190,00 para outro grupo de 30 funcionários. O dinheiro, segundo o presidente da entidade, deverá chegar às mãos dos trabalhadores hoje, depois das 15 horas.
Denilson Pestana diz que além de organizar o protesto, outra forma encontrada para apoiar os trabalhadores foi ingressar com uma ação pedindo à Justiça o arresto de bens da empresa. O objetivo é garantir recursos para o pagamento das verbas rescisórias dos funcionários. A ação, segundo Denilson Pestana, foi protocolada no Fórum anteontem.
Além disso, o sindicato está buscando apoio político para os trabalhadores. Estamos tentando marcar uma audiência com o prefeito Antonio Belinati para que ele nos dê apoio e, quem sabe, até cestas básicas para alguns trabalhadores que estão passando necessidade, explica.
O sindicato entrou em contato também com o vereador Antonio Ursi (PT), pedindo que consiga, na Câmara de Vereadores, uma moção para enviar ao Ministro da Fazenda, Pedro Malan. Queremos que o ministro agilize a negociação com os bancos para resolver esta situação de pendência da empresa, observa. Um pool de 38 bancos está renegociando a dívida da empresa, que é de R$ 600 milhões.
José Batista Maciel, 36 anos, estava entre o grupo de 50 trabalhadores que protestavam em frente à Encol, ontem à tarde. Ele conta que trabalha na construtora há quase três anos e que, por causa dos constantes atrasos no pagamento, perdeu a mulher. Ela me deixou faz quatro meses porque eu não conseguia dinheiro e estava devendo nas lojas, afirma.
A exemplo de muitos outros funcionários da Encol, José Maciel diz que está fazendo bicos para sobreviver. Ele conta ainda que costumava mandar cerca de R$ 100,00 para a mãe, que mora em Aracaju. Tenho mais 15 irmãos e sempre mandava dinheiro para ajudar, observa.
José de Oliviera, 34 anos, é casado e tem dois filhos, de seis e sete anos. Ele diz que quer ser demitido pela Encol para poder trabalhar em uma outra empresa. Nenhuma empreeiteira pega a gente para trabalhar enquanto não somos liberados pela Encol. Mas ainda ficar empregado sem poder receber?, questiona.
José de Oliveira relata que a situação está bastante difícil. Na semana passada, o meu filho pediu feijão para comer e eu não tinha dinheiro para comprar, lamenta. Ele diz que está conseguindo sobreviver graças à ajuda dos amigos, que conseguiram uma cesta básica para a família.
A Folha tentou falar com a superintendência local da Encol, mas foi informada que a única pessoa que poderia se pronunciar a respeito é o presidente da empresa, Jorge Washington. A Folha telefonou para o presidente, em Brasília, deixou recado com a secretária, mas não recebeu retorno.


