Operário encontra osso na obra do Cadeião
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sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Paulo Monteiro e Luciano Augusto Equipe NossoDia 
Londrina - Carregado de episódios de sofrimento e violência, o Cadeião da Rua Sergipe, no centro de Londrina, ainda é fonte de histórias cheias de mistério. O presídio, por onde passaram milhares de presos entre 1953 e 1994, agora é um canteiro de obras tocado pela Federação do Comércio do Paraná (Fecomércio-PR). O espaço está sendo transformado em um centro cultural. No entanto, em meio aos ruídos de martelos e máquinas, os ecos do passado fazem os operários se arrepiarem quando começam a falar sobre as coisas estranhas que veem e ouvem.
Recentemente, por exemplo, os trabalhadores encontraram um pedaço de osso quando reviravam a terra. Entre eles, não há dúvidas de que o material seja humano. Crença reforçada pelos túneis que eles próprios já "fecharam" no subsolo do presídio e pelo histórico de fugas e de mortes de presos do velho Cadeião.
Os operários acreditam que o pedaço de osso, com cerca de 20 centímetros, seria parte dos restos mortais de algum preso que tentou escapar por um túnel e não conseguiu. O carpinteiro Josué Rodrigues conta que o material estava a poucos metros do muro da Rua Sergipe. "Estava bem aqui, enterrado", aponta o experiente trabalhador.
Segundo o almoxarife da obra Carlos Aparecido Sebastião, dois túneis já foram foram descobertos. "Percebi que nenhum deles chegou ao final. Eles começavam aqui dentro e iam afunilando", detalha, completando que havia sinais de desmoronamentos em alguns pontos.
Vozes do além
Não foi só o osso que deixou o pessoal da obra de "cabelo em pé". Eles afirmam que "vozes do além" são ouvidas com frequência no local. "Logo quando começamos a obra tinha um pessoal que estava dormindo aqui temporariamente. Eles disseram que quando chegava perto das 2h30 escutavam pessoas gritando no piso de cima", diz Sebastião, cheio de desconfiança.
Já o pedreiro Samuel Francisco de Assis, que trabalha na obra do Cadeião, é uma testemunha viva da época em que o presídio fervia. Ele cumpriu pena ali entre 1991 e 1994 e confirma que vários "colegas" morreram soterrados ao tentarem fugir por túneis improvisados. "O pessoal não aguentava tanto sofrimento. Tinha gente que até pulava do telhado tentando cair na rua", recorda.
A reportagem mostrou imagens do osso para o técnico do Laboratório de Anatomia da UEL, Marco Zambon. "Aparentemente, pode ser um osso de um corpo em formação. Parece o úmero (osso do braço), mas as extremidades estão deterioradas. Geralmente isso ocorre com ossos de crianças, que ainda possuem cartilagens nessas partes e que podem ser consumidas com o tempo", diz, sem descartar que o osso seja de um animal.
Segundo o presidente do Sistema Fecomércio do Paraná, Darci Piana, o pedaço de osso foi recolhido e vai ser analisado. Um exame de DNA não está descartado. Se for humano, poderá fazer parte do memorial que será erguido na entrada do prédio, no mesmo local danificado por um trator, nos anos 1990, numa tentativa de demolição que foi impedida por algumas pessoas. No segundo andar, duas celas serão conservadas como se ainda abrigassem presos. "Vamos manter como uma forma de preservação da memória e da história do Cadeião", diz Piana. A intenção da Fecomércio é inaugurar o "Sesc Cadeião" entre março e abril do ano que vem.


