Onze incêndios em menos de duas semanas
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quinta-feira, 28 de junho de 2007
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
Desde o dia 16, o Corpo de Bombeiros de Londrina registrou 11 ocorrências de incêndios em residências. Destas, quatro resultaram na perda total das casas, todas de madeira. Nesses casos, além do teto, as famílias costumam perder todos os seus bens materiais, restando apenas a roupa do corpo.
Foi assim com a vendedora Débora de Freitas Januário, 31 anos. No dia 16, Débora estava dentro de casa, junto com uma filha de 5 anos e outra de 12, na hora do incêndio, principiado por um problema no ferro de passar roupas. Ela presenciou de perto a combustão de cada um dos objetos de seu lar, inclusive a bicicleta nova da filha menor, Ana Clara.
A bicicleta, aliás, é a única coisa da qual a menina diz sentir falta. Isso porque, em menos de dez dias, a família já estava instalada em outra casa a poucas ruas da residência anterior, com sofá, geladeira, estante, máquina de lavar, mesa, cadeiras, cama, talheres, panelas, roupas, calçados, brinquedos, toalhas, tapetes e até um cachorrinho de estimação. Tudo fruto da solidariedade alheia - a maioria pessoas de quem ela nunca ouviu falar, mas que souberam de sua história através dos meios de comunicação.
''Nunca imaginei que ia conseguir tudo em tão pouco tempo. Achei que ia levar pelo menos dois meses para me mudar para uma casa, e um ano para conseguir tudo o que tenho hoje'', comentou, agradecida. A vendedora revela que chegou a ganhar duas geladeiras e dois sofás. ''Como não precisava mais, dei para outras pessoas que eu sabia que também estavam precisando muito'', revela.
Ela conta que o incêndio veio estragar uma etapa feliz de sua vida, após conseguir, através da Lei Maria da Penha (que trata da violência doméstica contra a mulher), separar-se do marido que a agrediu por 13 anos. ''Quando eu finalmente consegui me divorciar e montar uma casa para minhas filhas, sem meu ex-marido vir incomodar a gente, aconteceu essa tragédia. Mas agora estou começando uma nova grande etapa na minha vida.''
De toda essa história, Débora conseguiu extrair duas lições, que devem amenizar a lembrança traumática do incêndio. ''Uma coisa foi o milagre de ter conseguido sobreviver. Estávamos nos fundos da casa, e o fogo é silencioso. Poderíamos ter morrido. A outra é acreditar que ainda existe gente boa. Isso faz a gente ter mais esperança no mundo e confiar mais na vida'', avalia.
Com a experiência, ela também pôde observar que as pessoas que mais ajudam geralmente são as que também passam por necessidades. ''A mulher que me acolheu em sua casa após o incêndio vive com grandes dificuldades, e o filho da proprietária da casa que pegou fogo precisava do dinheiro do aluguel para comprar os remédios para a mãe'', relata. Segundo a vendedora, mesmo assim os proprietários da residência, que moram na edícula nos fundos do terreno, não exigiram nenhum tipo de ressarcimento. ''Eles foram muito humanos, quiseram que eu me reestruturasse e ficaram felizes com isso. Só que agora são eles que precisam de ajuda para reconstruir a casa, porque também passam por necessidades''.


