Silvana Leão
De Londrina
Os olhares são um misto de curiosidade e incredulidade. Como aquela mulher, em cima de uma cadeira de rodas, pretende entrar no ônibus de transporte coletivo, justamente numa das ruas mais movimentadas da cidade? A psicóloga Odete Vilalta, ainda com um tempinho para o próximo compromisso, não resiste e pára para ver. ‘‘Ela vai mesmo entrar? Essa eu quero ver.’’
Informada de que estávamos ali justamente para testar o ônibus adaptado para deficientes físicos da empresa Francovig, que entrou em circulação ontem, ela respira mais aliviada e revela que as dificuldades enfrentadas por pessoas com problemas físicos sempre a preocuparam. ‘‘Este tipo de iniciativa é muito importante para a inserção do deficiente na sociedade’’, diz, com conhecimento de causa.
Enquanto esperamos, desce de um dos ônibus Wilmar Maier, usuário de muletas, que confessa: ‘‘O duro é descer pela porta do meio ou do fundo dos ônibus comuns, porque tem o corrimão no meio onde a muleta enrosca’’. Mais alguns minutos e chega o carro da linha 202, com o desenho da cadeira de rodas estampado na lataria. Nossa convidada a testar o equipamento (uma plataforma elevatória instalada na porta central do ônibus) é Aparecida Ruela, 49 anos, vítima de paralisia infantil.
O cobrador Paulo Augusto de Rezende, cuidadoso, se prepara para usar o equipamento pela primeira vez. Os passageiros que já estão no interior do veículo se curvam em direção à porta central. Todos querem ver a novidade. Lá embaixo, Aparecida tem um pouco de dificuldade. A plataforma não ficou exatamente no nível da calçada. Rapidamente, um rapaz que passa pelo local se oferece para ajudar, e a operação termina em curto espaço de tempo, coisa de um ou dois minutos.
Já acomodada na ‘‘vaga’’ destinada aos cadeirantes, Aparecida coloca o cinto e se mostra satisfeita. Agora já está mais perto o dia em que poderá vir ao centro sozinha, sem depender da ajuda de parentes e amigos.
Paulo de Rezende, o cobrador, reconhece que o acesso ao ônibus dos passageiros com deficiência é mais demorado, ‘‘mas é assim mesmo, tem que ter paciência’’. Até porque, como bem lembra Rezende, muito pior é quando tem que descer, carregar o passageiro no colo e depois voltar para desmontar e transportar a cadeira de rodas.
Seguimos fazendo o trajeto traçado para a linha. Em alguns momentos, os passageiros se espremem pelo corredor do ônibus, mas ninguém reclama da ausência dos oito lugares para sentar, suprimidos para que os deficientes manobrem suas cadeiras e se coloquem em segurança. Alguns estranham, mas acabam demonstrando interesse pelo sistema. Um senhor diz que queria ver a plataforma funcionando, mas não vai poder nos acompanhar até o fim do trajeto.
Não demora a aparecer pelo caminho um dos empecilhos que, em alguns momentos, vai impedir que o motorista estacione no ponto rente ao meio-fio, de forma que o embarque ou desembarque através da plataforma seja feito com segurança: as árvores que crescem sobre a rua e obstruem a passagem do ônibus. O motorista, Liaquin Bernardo, explica que se teimar e avançar em direção aos galhos, corre o risco de quebrá-los, estragar a pintura do ônibus ou mesmo amassá-lo.
Outra preocupação de Bernardo são os motoristas que estacionam seus carros em locais destinados à parada do ônibus. Sem espaço para aproximar-se da guia, os usuários de cadeiras de rodas e muletas terão que descer no asfalto. Além da falta de segurança, os cadeirantes terão pela frente o meio-fio, barreira intransponível sem a ajuda de alguém.
No fim de nosso ‘‘passeio’’, o desembarque de Aparecida chama a atenção das pessoas que estão no Terminal Urbano. Uma das senhoras sentadas no ponto não esconde o espanto: ‘‘Que legal, a coisa mudou, heim?!’’ A companheira, ao lado, também não consegue evitar o comentário: ‘‘Até que enfim alguém fez alguma coisa...’’ Aparecida Ruela, por seu lado, conclui que ‘‘para o começo, o serviço está ótimo’’.

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