Sertanópolis - Foi por falta de opções culturais na pequena Sertanópolis (Norte), como espetáculos de teatro, música, poesia e literatura, que um grupo de aposentados resolveu se mobilizar para proporcionar acesso à cultura na cidade. Nas próprias residências, começaram a realizar saraus para que os talentosos moradores do município exibissem suas qualidades artísticas. O grupo foi batizado de Associação de Proteção à Arte e à Cultura (Apac).
Algum tempo depois, com a adesão de uma recém-formada em Artes Cênicas que retornava à cidade natal por falta de oportunidades de trabalho nos grandes centros, a associação se transformou em ONG e passou a oferecer cursos de música, teatro e pintura para crianças e adolescentes.
A aposentada Claudete Martins Kozan, presidente da entidade, é uma das personagens da história. Karen Rossato, a moça que se formou em Artes Cênicas, é hoje a coordenadora da escola de teatro. Ao todo, atendem mais de 120 alunos que, além de estudarem arte, ainda participam de espetáculos que levam diversão aos moradores de Sertanópolis.
''Em 2010 faremos a sétima edição do Festival de Teatro, com grupos formados nas escolas, igrejas e creches'', contaram. No início, de acordo com Claudete, o público das peças não passava de dez pessoas. ''Hoje, o público chega a 600 espectadores. Quando há recursos, trazemos espetáculos de fora para os alunos terem contato com o teatro profissional.''
Inconformados com a falta de opções culturais, os membros da associação também agitam a cidade com exposições de pintura em tela, pintura em tecido, música e eventos literários, como o lançamento do livro ''...E Deus criou o pai'', de Tereza Venturelli Machioni, com ilustrações produzidas por Teresa Rossetti Tozatti e Neide Rossato Godoy.
A entidade já recebeu recursos do projeto ''Cultura Viva'', do Ministério da Cultura. ''Mas o projeto encerrou e agora buscamos sustentabilidade'', disse Karen. A prefeitura cobre despesas básicas para manutenção do espaço físico. Os alunos que podem, pagam uma taxa de R$ 15 mensais para custeio de material. A escola de teatro tem patrocínio das empresas Moinho Globo e Agroreli.
No ano passado, a Apac formou dois grupos de contadores de histórias que atuam semanalmente nas escolas do município. A trupe de palhaços ''Doutores da Alegria'' também leva diversão a pessoas internadas no hospital. ''Nosso próximo plano é formar um grupo de teatro amador com alguns alunos da escola. O objetivo é conseguir profissionaliza-los.''
Motivação
Rafaela Neves Pissoloto, 9, Gabriela Kozan, 9, Isabelle Moraes, 9, e Marília Kozan, 7, fazem aula de pintura em tela e aprovam o curso. ''A gente aprende a fazer pinturas bonitas'', resumiu Marília, que também faz teatro e, nas aulas, está conseguindo lidar melhor com a timidez. ''Não tenho mais vergonha.''
Tânia Pinheiro Neves Pissolotto, mãe de Rafaela, avalia que a presença da Apac em Sertanópolis é uma ''sorte''. ''Aqui na cidade não tinha quase nada para as crianças fazerem. Minha filha está muito motivada, até o rendimento escolar melhorou.''
O filho mais velho, Rodrigo, 20, participou da tradicional fanfarra Leões do Norte, que tinha sido extinta e foi resgatada pela associação. ''Era muito legal, eles participavam de festas, feiras e das comemorações do aniversário da cidade'', opinou, acrescentando que ''o acesso à cultura fez toda a diferença na vida dos filhos.''
Os gêmeos João Henrique e João Caíque Hemmel dos Santos, 15, fazem pintura em tela e, até terem oportunidade de frequentar as aulas, não imaginavam que seriam capazes de produzir pinturas tão bonitas. ''Sempre tive vontade de pintar, estou muito feliz'', resumiu João Henrique. Para o irmão, uma escola de artes fazia falta na cidade. ''Agora temos mais opções de cursos para aprender.''
Veteranos da escola de teatro, Julia Monteiro dos Santos, 17, e Taffarel Sette, 14, concordam que o acesso às aulas mudou a vida dos dois. ''Eu era tímida e o teatro me ajudou a superar isso. Também melhorou minha concentração'', disse a adolescente, para quem as atividades da escola são parte importante da rotina. ''Quero estudar Enfermagem, mas nunca vou deixar de me interessar pelas artes cênicas.''
Taffarel também superou a timidez e, na escola, definiu um objetivo para o futuro. ''Quero ser ator profissional'', afirmou. Ele também integra um grupo de contadores de histórias e aprovou a experiência. ''É um trabalho muito importante, as crianças precisam de cultura e entretenimento''.
Márcio Rafael, 25 anos, já tinha feito teatro na escola e ingressou esse ano na Apac. Portador de deficiência intelectual, ele garante que não tem vergonha de se apresentar. ''Gosto muito de mostrar o que aprendo. O teatro me ajuda a colocar bons sentimentos para fora.''

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