ONG defende o direito ao uso de drogas
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de junho de 2000
Silvana Leão De Londrina 
A questão é preocupante: o Brasil já tem aproximadamente um milhão de usuários de drogas injetáveis (UDIs). A estimativa recente do Ministério da Saúde ainda deixa de fora outros tipos de drogas que engrossam, e muito, estes números. Embora o País não possua até hoje um levantamento exato sobre o problema, a sociedade vem assistindo estarrecida às manifestações de poder dos traficantes e ao constante aumento do número de dependentes químicos, que são em sua maioria menores de idade, de todas as classes sociais.
A realidade mostra que as políticas tradicionais de controle do uso de entorpecentes apenas com repressão têm resultados desanimadores. O País não conta com programas eficientes de tratamento dirigidos a adolescentes ou de prevenção ao vício na rede pública de saúde. Em cidades como Londrina, falta integração entre os serviços que se propõem a trabalhar com o assunto.
A política de redução de danos, adotada com sucesso em alguns países europeus, ainda é algo desconhecido pela maioria das pessoas, e assusta num primeiro momento. No caso dos UDIs, por exemplo, uma das iniciativas é a distribuição de kits contendo material descartável para aplicação da substância, como seringas e agulhas. Pesquisas revelam que a distribuição do kit pode causar redução do consumo porque o usuário perde mais tempo com o ritual de higiene.
Levantamento feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) nos anos de 97 e 98 mostra que, num universo de 12 mil usuários de drogas vinculados a programas de redução de danos, houve uma queda de 60% no compartilhamento de seringas, diminuindo com isso o risco de transmissão de doenças, como a aids, destaca Domiciano Siqueira, presidente da Associação Brasileira de Redutores de Danos (Aborda), organização não-governamental (ONG) sediada em Ribeirão Preto (SP).
Siqueira foi um dos participantes do seminário Drogas e adolescentes: buscando caminhos, realizado pela Associação Médica de Londrina. A intenção dos coordenadores do evento foi justamente mostrar uma nova abordagem do problema e despertar os participantes em sua maioria profissionais ligados a entidades e instituições que lidam com adolescentes para a carência existente em torno de soluções eficazes.
Não conheço nenhum serviço público que atenda os adolescentes dependentes químicos de maneira eficiente, e as clínicas particulares enfrentam grandes dificuldades, como o risco judicial de atender menores de idade e o alto custo do tratamento, afirma o pediatra londrinense Walter Marcondes Filho, um dos coordenadores do seminário e integrante da equipe do Centro de Referência do Atendimento ao Adolescente de Londrina (CRAAL).
O médico, que se especializou no atendimento a adolescentes (hebeatria), defende um trabalho integrado entre juízes, Ministério Público e todos os serviços que se propõem a trabalhar com o assunto. Trabalhos isolados, como acontecem atualmente em Londrina, não surtem grandes efeitos.
Os projetos que visam apenas o aspecto curativo também não resolvem. O que pode reverter o atual quadro, acredita Marcondes, são os trabalhos na área da prevenção. Este é o grande desafio, diz. Um desafio, observa, que também é de responsabilidade dos pediatras.
Nós temos um papel importantíssimo junto à família, de esclarecer sobre cada fase da criança, desde a primeira infância, e sobre suas necessidades. Isto é fundamental porque a dependência química na adolescência é um sinal de falha na formação psicológica da criança, que acontece principalmente na fase oral (do nascimento até por volta dos dois anos, segundo a teoria freudiana).
Domiciano Siqueira comentou a lei nº 6368, de 1974, que trata do assunto no Brasil. Ela (a lei) foi criada antes do advento da aids, e portanto é retrógrada, proibicionista e não respeita o direito da pessoa de usar drogas. Com isso, os usuários passam a viver à margem dos direitos básicos, como saúde e educação. Para o presidente da Aborda, a aids só será controlada se houver uma estratégia de prevenção adequada entre usuários de drogas, acima de tudo as injetáveis.
Ele ressalta que a discriminação e o preconceito fazem com que o assunto seja discutido apenas dentro do crime organizado. E alerta: Drogas são um problema de saúde e de justiça, e não de polícia. O caminho, defende Siqueira, é uma regulamentação que tire a produção e a comercialização das chamadas drogas ilícitas das mãos do crime organizado. O acesso às drogas tem que ser melhor controlado, não no sentido da repressão, mas do direito.
Um dos argumentos de Siqueira é que o Brasil é extremamente consumidor de todo tipo de entorpecente, e que é antinatural, portanto, simplesmente reprimir o uso. A regulamentação seria um golpe no crime organizado, afirma, esclarecendo que a Aborda procura incitar a discussão em torno do tema sem envolver falsos valores. Nosso lema é: Assuma o controle.
Outro participante do evento, o médico Marcelo Araújo Campos, coordenador do Programa para a Infância Desfavorecida do Meio Urbano, de Belo Horizonte (MG), argumenta que a maioria das instituições que atendem usuários de drogas têm ligação com igrejas e, apesar de bem intencionadas, fundamentam seu trabalho numa troca, onde a condição para receber o apoio e a ajuda que precisam é o abandono do vício. Embora defenda o livre arbítrio do usuário, Campos ressalta que o mesmo deve estar consciente de que não tem o direito de invadir o espaço alheio (roubando, por exemplo) para comprar drogas.


