A maioria dos coletores de lixo da ONG Esperança, na Vila Marízia (Área Central de Londrina), nem sonha em fazer uma viagem internacional um dia. Mas suas imagens estão prestes a ser transportadas para o outro lado do mundo, através das lentes de uma equipe de TV japonesa.
O trabalho da ONG é tema de um documentário produzido pela TV Tokio no Brasil, sob encomenda do Ministério das Relações Exteriores do Japão. A equipe está desde a última terça-feira na cidade, acompanhando a rotina de coleta, separação e reciclagem de lixo no barracão da Esperança. A atenção sobre a ONG não se deu por acaso: há seis anos, o governo japonês investiu R$ 74 mil na organização, como parte da Assistência aos Projetos Comunitários (APC).
Com esse dinheiro, a Esperança construiu um barracão, adquiriu uma máquina de prensagem e tornou-se referência entre as ONGs de reciclagem da cidade. ''Antes a gente trabalhava ao ar livre, a chuva detonava todo o material. Agora mudou tudo'', conta a presidente da ONG, Verônica Cardoso Costa, acrescentando que o volume do material recolhido saltou de ''uns míseros caminhõezinhos'' para 80 toneladas/mês. O aumento se deve, em grande parte, ao fato de a separação domiciliar de lixo reciclável ter se tornado ''quase'' obrigatória na cidade - embora ainda não haja multa para quem deixa de fazê-la.
Por isso mesmo, Verônica diz que a ONG pretende pleitear novamente a verba japonesa, dessa vez para tentar dobrar o tamanho do barracão de 600 metros quadrados. ''Nossa meta era dar trabalho para 40 pessoas, mas hoje ainda temos 22'', afirma.
Tetsuya Naito, funcionário contratado pelo consulado do Japão especialmente para supervisionar a APC no sul do Brasil, diz que os recicladores da Marízia terão que disputar a verba com um grande número de entidades que apresentam projetos sociais. Mas ressalta que, aos olhos do governo nipônico, o investimento na ONG já valeu a pena. ''É um projeto para restaurar vidas. Parece que o governo federal aqui no Brasil não ajuda muito nesse tipo de ação'', observa. Entre as entidades paranaenses recentemente aprovadas na APC estão também a Apae de Apucarana, o Hospital Municipal de Borrazópolis e o Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba.
O diretor do documentário, Hara Tetsuo, diz que as imagens captadas aqui não devem chocar os telespectadores das geração de mais de 50 anos, que como ele chegaram a conhecer um Japão mais pobre do que o atual. Já os jovens, acredita, devem se surpreender. ''No Japão, esse tipo de serviço (coleta e reciclagem de lixo) fica a cargo dos governos provinciais, com verba do governo federal. Entidades filantrópicas não lidam com isso'', declarou, com auxílio de um intérprete.
A ONG também chamou a atenção da estudante Chinatsu Ito, 22 anos, que está há sete meses no Brasil e pretende fazer uma tese focada em favelas. Atualmente frequentando o curso de Letras na Universidade Estadual de Londrina (UEL), ela expressou em razoável português sua opinião sobre o trabalho dos recicladores, que ficou conhecendo ontem. ''Eles conseguiram melhorar de vida através da união. Minha impressão, ao vê-los, é que se uma pessoa tem vontade de trabalhar e sustentar a família, ela consegue.''

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