Os coordenadores da Organização Não-Governamental (ONG) Adé Fidan, que presta ajuda a gays, travestis e garotos de programa, estão indignados porque desde o início do ano não recebem da Secretaria Municipal de Assistência Social repasses mensais a que teriam direito para a manutenção de dois projetos. Segundo o coordenador-geral da ONG, Édson Bezerra, a Adé Fidan deveria estar recebendo mensalmente desde janeiro R$ 2,1 mil, além de 200 passes de ônibus, mas até agora não teve acesso ao dinheiro.
''Segundo a Lei Municipal nº 8.828, assinada pelo prefeito (Nedson Micheleti) em 26 de junho de 2002, somos considerados uma instituição de utilidade pública. No orçamento para 2003, estão previstos estes repasses da Secretaria de Assistência Social. E nada foi oferecido até agora'', disse Bezerra. A Adé Fidan é financiada pelo Ministério da Saúde e pela Unesco. As secretarias municipais de Saúde e de Assistência Social deveriam entrar com o apoio, mas apenas a primeira estaria honrando suas obrigações.
''O problema é que o dinheiro repassado pelo Ministério e pela Unesco não pode ser utilizado para aluguel, contas de água, luz e telefone, custos de transporte ou de funcionários, apenas para estrutura. Estes pagamentos estão todos atrasados. A contrapartida da prefeitura é essencial'', explicou o coordenador. Com o dinheiro, a Adé Fidan mantém a Casa de Vivência Saara Santana e o projeto Boa Noite Cidadão.
Na Casa de Vivência, travestis participam de oficinas de cozinha-piloto, do salão escola, para cabeleireiros e maquiadores, e de artesanato, e recebem atendimento psicológico e jurídico. Noventa pessoas estão cadastradas no projeto. No Boa Noite Cidadão, cinco travestis, que recebem ajuda de custo, passam à noite em pontos estratégicos da cidade distribuindo preservativos para gays e garotos de programa. No total, 532 pessoas foram cadastradas.
O travesti Marla Rocha, 28 anos, trabalha como secretário da ONG e disse que o projeto mudou sua vida. ''Me sinto importante e útil, tenho muitas amizades e faço o que gosto'', afirmou ele, que viveu da prostituição por quatro anos. Marla agora prestará o vestibular, dois anos depois de sua última tentativa. ''Quero fazer Serviço Social'', avisa.
Bezerra conta que o que o irrita na demora do repasse é que os dois projetos da Adé Fidan estão sendo reconhecidos em todo o mundo. ''Em maio, a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) vai fazer um documentário sobre o nosso trabalho, que será exibido em Nova Iorque (EUA) e em Johannesburgo (África do Sul). Em abril, apresentaremos os projetos no Fórum Mundial de Redução de Danos, em Cuba. E, na última reunião do Conselho de Assistência Social, me disseram que a Adé Fidan 'não é prioridade'. Não entendo como podem ignorar um trabalho com essa visibilidade'', disse o coordenador. ''Se não recebermos uma boa satisfação, nossa idéia é acampar em frente à Secretaria como protesto''.

mockup