Campo Mourão - Apesar do dia ter amanhecido chuvoso em Campo Mourão, Amarildo manteve a rotina sagrada de todo dia 13. Foi à prefeitura pagar mais uma parcela do IPTU. Desta vez, devido à chuva, teve que levar o guarda-chuva de companhia. E foi provavelmente na fila, esperando sentado a chamada de sua senha, que Amarildo esqueceu o guarda-chuvas que o acompanha há tantos anos.
O fiel contribuinte pagou o imposto e saiu pela rua confirmando a autenticação mecânica do carnê. Assim, nem percebeu que a chuva já tinha passado. Muito menos que o tão útil equipamento havia ficado para trás. Amarildo ainda passou no mercado, comprou carne para o almoço, conversou com os taxistas da praça e então foi embora. Só percebeu que tinha esquecido algo quando chegou em casa.
''O guarda-chuva!'', exclamou Amarildo enquanto guardava o molhado par de sapatos. Sem preguiça, ele voltou imediatamente para a prefeitura. Mas nada do dito cujo. O guarda-chuva tinha sumido. E ninguém tinha visto nada. Nem o vigilante, nem o caixa, nem a recepcionista. Muito menos quem ainda aguardava na fila. Por via das dúvidas, Amarildo ainda conferiu no mercado e no ponto de táxi. Nada.
Na volta para casa, desconsolado, começou a pensar em todos os casos que já tinha ouvido falar de parentes e amigos que tinham perdido o guarda-chuva. Lembrou do irmão Osvaldo, que perdeu um no banco do ônibus. Do primo Ananias, que perdeu outro na farmácia, e da comadre Teresa, que esqueceu o guarda-chuvas em plena igreja. Isso sem falar no vizinho Custódio, que perdeu a proteção num velório.
Amarildo foi mais longe. Lembrou até do primeiro guarda-chuva que ficou sabendo que foi perdido, ainda nos tempos da escola primária. Era na verdade uma sombrinha, da Dorotéia. ''Pobre menina, chorou tanto'', relembrou. Ao mesmo tempo, Amarildo percebeu que nunca ouvira falar de ninguém que tivesse achado um guarda-chuva. ''Ora, mas onde vão parar os guarda-chuvas perdidos?'', perguntou a si mesmo.
Num primeiro momento, Amarildo lamentou a desonestidade de quem se apossa do que não lhe pertence. ''Mas será que só os desonestos acham os guarda-chuvas?'', voltou a questionar-se. Não! Amarildo confiava no ser humano e voltou para casa convencido de que o sumiço dos guarda-chuvas perdidos era apenas mais um desses mistérios que o homem não consegue explicar. Coisa de disco-voador, talvez...

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