Londrina – O pé direito desce o meio-fio e repousa sobre o asfalto. O esquerdo continua em cima da calçada. Sem completar o passo, o aposentado Eduardo Ardiles, de 64 anos, é obrigado a retroceder com rapidez para não ser atropelado. Na terceira tentativa, quando enfim consegue transpor a movimentada Avenida Leste-Oeste, comemora. O simples ato de atravessar a rua pode ser uma tarefa difícil e perigosa em muitos pontos de Londrina. São os cruzamentos onde os pedestres não têm vez.
Enquanto as grandes e médias cidades do País investem em soluções para o trânsito, como as faixas de pedestres em X, adotadas recentemente na capital paulista, semáforos com emissão de sinal sonoro para deficientes visuais, ou botões para deixar o sinal verde para os pedestres, Londrina focou em apenas duas medidas preventivas: as faixas vermelhas e as elevadas. A falta de estrutura no trânsito somada à imprudência de motoristas e dos próprios pedestres ajudam a alimentar as preocupantes estatísticas.
Com base em dados do Placar da Vida, estatística de acidentes de trânsito divulgada pela Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), e reclamações de moradores, a reportagem percorreu alguns dos mais perigosos pontos de travessia de pedestres de Londrina, como a rotatória da Dez de Dezembro, ao lado da Rodoviária; o cruzamento entre a Avenida Leste-Oeste e a Rua Guaporé, próximo ao Terminal Central; os seis pontos de aproximação resultantes dos cruzamentos entre as ruas Paraíba, Quintino Bocaiuva e Benjamin Constant, no centro.
Logo no início da manhã, o sapateiro Douglas Junior de Oliveira, de 20 anos, segue para mais um dia de trabalho. Ele desce o centro pela Rua Sergipe e caminha alguns metros pela Leste-Oeste. Encontra dificuldade para cruzar algumas ruas, mas nada comparado ao último obstáculo antes de chegar ao serviço: a rotatória ao lado do Shopping Boulevard. Espera o primeiro pelotão de carros passar e, em um cálculo rápido, se atira na avenida fora da faixa. Acha que dá tempo. Os passos largos se transformam em uma corrida rápida quando mais veículos se aproximam rapidamente. "Foi por pouco", comenta, recobrando o fôlego.
Assim como ele, quase ninguém utiliza as faixas de pedestres desalinhadas entre as duas pistas da Avenida Dez de Dezembro. A faixa da pista do lado do shopping segue a direção da calçada do canteiro central, já a oposta fica escondida, distante cerca de 15 metros. Quem a utiliza acessa o canteiro central pelo meio do gramado. "Não tem lógica ir lá na frente depois voltar para pegar a outra faixa. Sem contar que quando chove a grama fica lisa, suja o sapato", reclama. A vendedora Ingrid Alves, de 21 anos, também pede melhorias no trecho. "Passo aqui todos os dias, sempre com medo. É preciso uma sinalização melhor", reivindica.
No encontro entre a Guaporé e a Leste-Oeste, o improviso na engenharia de trânsito é gritante. As faixas de pedestres para cruzar a avenida só existem em um dos lados, mas não é difícil ver pedestres no miolo do cruzamento. Mesmo sem faixas, retiradas após reestruturações recentes, a ilha com calçada e guias rebaixadas sugere uma travessia segura. Porém, em seguida, o pedestre precisa parar ao lado de uma mureta e esperar o tráfego no sentido contrário antes de chegar ao outro lado. "Eu sei que tem a faixa do outro lado, mas a questão é que dá para reativar essa travessia. Falta capricho", critica a comerciante Luciana Sala, de 42 anos.
Ainda na região central, um dos pontos mais temidos pelos pedestres é a "estrela de seis pontas" formada pelos encontros das ruas Paraíba, Quintino Bocaiuva e Benjamin Constant. Os ângulos das esquinas são tão fechados que é impossível ver os veículos se aproximando. "Aqui é complicado mesmo, por isso muita gente só atravessa correndo", conta Antônio Pereira Fontes, de 58 anos, dono de uma borracharia na Rua Paraíba. Em pontos onde não há problemas de visualização, o perigo é a pressa dos condutores. O semáforo ainda está fechado para os veículos quando Marcos Pereira, de 51 anos, atravessa a Benjamin Constant, mas para os motociclistas apressados o último tempo do vermelho já é verde. "Está cada dia pior", esbraveja.

TERMINAL
A Rua Benjamin Constant tem outro ponto preocupante causado pela imprudência dos pedestres: a saída de ônibus do Terminal Central, na esquina com a Avenida São Paulo. Quando o semáforo fecha para os carros que trafegam pela Benjamin, a primeira reação das pessoas é cruzar a rua, mesmo com o sinal para pedestres em vermelho. Em seguida, se dá a disputa desigual entre pedestres e o primeiro ônibus que deixa o terminal. "Todo dia é a mesma coisa, o ônibus tira cada fina dos pedestres", conta o vendedor Marcos Almeida de Souza, de 33 anos.
Para a comerciante Sílvia Martins, de 24, muitos pedestres sabem que estão errados, se arriscam para ganhar tempo, mas alguns, principalmente os turistas, não se atentam para o sinal estar fechado. "Ao ver que os carros pararem, eles seguem e se assustam com os ônibus. Acho que poderiam reforçar a sinalização", sugere.

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