‘‘As coisas estão se invertendo: os jovens morrem e os velhos vão ficando’’

Com 52 mil habitantes e fortes traços da cultura alemã em sua colonização, Rolândia tem um ar de cidade pacata, tranquila. De fato, em uma conversa com diversos moradores no Centro da cidade, a impressão que se tem é de que o município, conhecido por sua Oktoberfest, é um bom lugar para se viver.
No entanto, em uma região da periferia de Rolândia, próximo à saída para Arapongas, a história é bem diferente. O medo está no rosto de cada morador. As lágrimas tomam conta dos olhos de mães que vêem seus filhos se perdendo pelos caminhos do tráfico de drogas. Dois bairros vizinhos, o Jardim Itália - que já foi chamado de ''Iraque'' pelos seus moradores - e o Jardim São Fernando, conhecido como ''Morro'' em alusão às violentas favelas cariocas, registram índices alarmantes de violência. Em 2007, seis jovens daquela região foram assassinados.
No Jardim Itália, onde a reportagem da FOLHA encontrou, no mês de dezembro, um rapaz de 19 anos viciado em crack acorrentado dentro de casa pela mãe para ficar longe da droga e da morte, a situação já foi pior. Moradores contam que até pouco tempo atrás os barulhos de tiros faziam parte da rotina. Traficantes travavam uma verdadeira guerra com os rivais do ''Morro''. O apelido de ''Iraque'' sintetizava a situação de conflito armado.
Atualmente, o combate ''apaziguou'', como conta uma senhora. Crianças brincam pelas ruas de terra e os adultos - muitos trabalhadores das lavouras - conversam em frente às casas populares construídas pela Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar), porém as mortes continuam acontecendo. Traficantes não pensam duas vezes antes de executar quem deve para o tráfico ou atrapalha seus negócios de outra forma. ''As coisas estão se invertendo: os jovens morrem e os velhos vão ficando por aqui'', comenta a dona-de-casa Terezinha Ferreira de Souza. Outros moradores fazem coro com ela e também lamentam o fato de a vida de centenas de pessoas de bem ser atrapalhada pela violência de alguns.
No Jardim São Fernando a situação é mais crítica. Com ruas asfaltadas e casas de alvenaria, o ''Morro'' em nada lembra uma favela. No entanto, o medo fixou residência por ali. Ninguém quis falar com a reportagem. Somente uma senhora, de poucas palavras, em um lugar onde não podia ser avistada concedendo entrevista, relatou que as poucas quadras do pequeno bairro escondem 12 pontos de venda de drogas. Segundo ela, outros sete pontos estão no Jardim Itália.
Pelas ruas do ''Morro'', dezenas de jovens perambulam parecendo não ter o que fazer. A cada parada do carro da FOLHA, menções de intimidação. Rodinhas de garotos conversando se formam em todas as quadras. No último mês, dois rapazes que costumavam fazer parte desses bate-papos foram executados. No dia 20, Edmar Fernando Biondo, 20 anos, foi morto com cinco tiros pelas costas. No dia 30, Ronaldo Dias, 23, levou seis tiros. Os dois crimes aconteceram à luz do dia.
De acordo com o tenente Silvio Morais, que responde pelo setor de comunicação do 15º Batalhão de Polícia Militar de Rolândia, operações estão sendo feitas para coibir o tráfico de drogas no local, porém falta colaboração da comunidade. ''Sabemos que ali é um ponto crucial de tráfico de entorpecentes. Em 2007, apreendemos mais de 120 quilos de drogas na área do batalhão e realizamos a prisão de alguns traficantes daquele local. Porém, quando prendemos um responsável pelo tráfico, outro bandido assume o ponto. O problema é que a comunidade está com medo, por isso ninguém colabora com as denúncias anônimas'', ressaltou o tenente.

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