Onde o correio custa a chegar...
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quarta-feira, 03 de setembro de 2008
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
Piraquara - Você queria que o serviço dos Correios chegasse aqui de forma mais eficiente?, é a pergunta. A primeira resposta é um sorriso tímido, encabulado, de quem não sabe se tem direito de dizer o que pensa. Se chegasse direto nas casas, seria melhor, né..., responde baixo o jovem, entre os dentes.
O diálogo travado é com Justino Padilha Miranda, 17 anos. Ele cuida, ao lado do irmão, Bismarck, 12, do único contato que cerca de mil famílias do bairro Guaraituba, em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), têm com o resto do mundo. No bairro pobre, sem asfalto na maioria das ruas e água encanada em muitas casas, os dois são os responsáveis por uma espécie de agência informal dos Correios. Revezam-se para cuidar da caixa postal comunitária daquela região do bairro. Distribuem as correspondências das 9 às 15 horas sem ganhar nada. O trabalho é voluntário.
O correio oficial só chega até a pequena construção de madeira, onde funciona a sede comunitária. Geralmente, o carteiro vai de carro ou motocicleta e deixa as cartas ali. Depois, cada morador tem de passar no local para pegar suas correspondências.
A agência informal da localidade do bairro é um puxadinho pequeno, caindo aos pedaços, que ainda resiste em pé em parte de um terreno do pai dos garotos. Nele, chova ou faça sol, a dupla Justino e Bismarck cuida de receber as correspondências, organizá-las e distribuí-las para os moradores daquela região do Guaraituba. O bairro, erguido sobre áreas de mananciais, não poderia existir. Muitos dos terrenos são de invasão. Hoje, mais de 45 mil pessoas vivem na região, famosa pela violência e pela falta de estrutura, como saneamento básico. Além do ponto zelado pelos dois, o Guaraituba - maior área de invasão do Paraná - tem outras sete agências comunitárias de Correio.
Diariamente, a gente distribui umas 100, 150, contabiliza Bismarck. Falam baixo, os dois meninos. Falam pouco. Sorriem envergonhados por entre as toucas e as roupas de influência hip-hop. Dessa forma, na medida do possível, fazem o trabalho com afinco. Algumas pessoas reclamam do serviço, mas isso é normal, diz o mais novo. A gente faz isso para ajudar a comunidade, emenda o irmão mais velho.
A maioria das correspondências são contas de energia elétrica ou telefone, faturas de banco ou cartas de cobrança. Nisso, a agência do Guaraituba é como qualquer outra do centro de Curitiba. Os Correios estimam que 95% das correspondências que circulam no País sejam dessa natureza.
No bairro, porém, as faturas raramente chegam na data certa. Quase sempre chegam vencidas. Essa é uma das principais reclamações dos moradores. Boleto está sempre atrasado. Vem sempre depois que vence a fatura, reclama Maximiliano Pereira da Silva, 30, desempregado. É tanto atraso que eu desanimei de vir pegar. Agora quem vem é minha mãe, conta.
A auxiliar de cozinha Maria Eva dos Santos tem de caminhar dez minutos para poder ter acesso a suas cartas ou contas. Nos três anos que mora no bairro, sempre usou o serviço. E elogia: A gente é bem atendido por eles. Ainda assim, diz que seria melhor receber as correspondências em casa, como todo mundo.
O trabalho na comunidade começou em 2001, com o pai de Bismarck e Justino - candidato a vereador que prefere não se identificar. O ponto recebe todos os tipos de correspondência, exceto carteira de motorista. Agora, os moradores se esforçam para edificar uma nova sede para o local. A construção será feita com materiais de doação e não tem previsão de quando ficará pronta. Enquanto isso, vão se virando como podem. Mesmo com atraso e dificuldade, as correspondências vão chegando...


