Warren NabucoNeide: ‘Reestruturar as famílias’O sentimento de culpa é um dos primeiros a se apoderar dos pais quando descobrem que um filho adolescente está viciado em drogas. Afastar a culpa e buscar a reestruturação da família são as bases do trabalho desenvolvido por um grupo que está ajudando pais e jovens a mudar comportamentos e a enfrentar os problemas causados pelas drogas. Em Londrina, existe há cinco anos a Associação Regional Movimento Amor Exigente, formada por voluntários que atuam na prevenção, apoio, orientação e tratamento de dependentes químicos. São 13 coordenadores - pais que viveram o problema, encontraram uma solução e decidiram auxiliar os que buscam ajuda.
‘‘O primeiro ponto é afastar a culpa, porque ela fragiliza e impede a tomada de atitudes. O segundo é tratar a família para que saia do estado de angústia e comece a se reestruturar’’, explica a coordenadora regional do Amor Exigente, Neide Furtado. Formada em Educação Artística, ela trouxe o movimento para Londrina. Suspeitava que seu filho estava se drogando e foi até Campinas (SP) conhecer o movimento. ‘‘Como deu resultado comigo e com outro casal que tinha um filho dependente de drogas, decidi trazer o Amor Exigente para cá.’’
O resultado do trabalho é surpreendente: 80% de recuperação dos viciados. ‘‘Mas depende de perseverança’’, condiciona Neide Furtado. Mais de 500 pessoas já foram atendidas em Londrina e hoje a média é de 50 a 60 pessoas frequentando as reuniões semanais, numa sala cedida pela paróquia Sagrados Corações, na rua Mato Grosso (área central). O grupo mantém sigilo sobre os participantes. ‘‘É uma questão de ética, para evitar que o problema das famílias seja divulgado’’, diz Neide.
V.B. é um exemplo. Casada, 44 anos, 2 filhos, pudesse ajudar o filho de 16 anos a se livrar do vício. Ela conta que entrou em desespero ao encontrar a droga no quarto dele. O alerta sobre o comportamento do jovem já havia sido dado pela direção do colégio onde ele estudava. ‘‘Mas a gente não quer acreditar’’, diz ela. ‘‘Queria saber o motivo de ele estar fazendo aquilo, confirmar minha culpa, mas ele não dizia nada. Dizia que estava tudo certo’’, lembra V.B. Limite. Essa foi a palavra-chave para que ela pudesse ajudar o filho de 16 anos a se livrar do vício ( ver box ao lado).
O Amor Exigente nasceu nos Estados Unidos, há 15 anos, com um casal de psicólogos que tinha três filhas adolescentes usuárias de drogas. Tentaram o tratamento convencional - sem resultados. A solução veio a partir de mudanças na relação familiar que resultaram em alguns princípios. Introduzido no Brasil pelo padre Haroldo Rahn, fundador de comunidades terapêuticas em Campinas, o movimento segue 12 princípios básicos ( ver quadro), transmitidos durante um ano nas reuniões de grupo.
Apesar de o introdutor do movimento no Brasil ser um padre e as reuniões acontecerem em uma paróquia, observa a coordenadora, o movimento Amor Exigente não está ligado a religiões. ‘‘Não pregamos, não doutrinamos ninguém. Falamos em espiritualidade. Cada dia aprendemos coisas novas’’, ela diz. Criado nos Estados Unidos, o movimento existe em 15 cidades do Paraná e está sendo levado às escolas, onde será desenvolvido com a ajuda de professores.
O grupo não é formado apenas por pais de dependentes químicos. Alguns que ainda têm filhos na infância, e até grávidas, já se preparam para ajudar os filhos a viverem com tranquilidade a fase da adolescência. ‘‘Quando casamos, não recebemos nenhum manual sobre como educar os filhos e como nos educar. Ficamos perdidos’’, diz Neide Furtado, que tem quatro filhos.
Não só a falta de formação mas também de informação tem dificultado a atuação dos pais. Muitos deles, diz Neide Furtado, só percebem que o filho é usuário de drogas quando ele já está na fase de dependência. Costumam atribuir todos as reações à adolescência. Ela alerta: ‘‘Os pais precisam prestar atenção, porque uma série de comportamentos inadequados ao mesmo tempo, a começar pela queda no rendimento escolar, descuido com a aparência, troca do dia pela noite, mudança no grupo de amizades, isolamento e agressividade, podem ser sinais do uso de drogas’’.
Outra dificuldade na educação dos filhos, baseada na tese da educadora da Universidade de São Paulo (USP), Tânia Zagury, é decorrente do ‘‘psicologismo’’. Os leigos tiveram acesso à literatura sobre psicologia comportamental sem receber uma orientação e decidiram aplicá-la, deixando de lado o bom senso, o equilíbrio. ‘‘Saíram do autoritarismo, partindo para o permissivismo’’, avalia a coordenadora do Amor Exigente.
O ‘‘tudo pode’’ na educação dos filhos, entende Neide Furtado, resulta na falta de segurança, de limites e na perda da autoridade. ‘‘É preciso resgatar a hierarquia. Por isso, precisamos trabalhar a família porque ela não tem culpa pelo problema mas precisa mudar.’’ E mudança, observa a coordenadora exige esforço e perseverança. Para reestabelecer esses aspectos, o grupo atua com pais e parentes. Os dependentes também participam de grupos de apoio e os casos que necessitam são encaminhados aos tratamentos de desintoxicação. O sentido do Amor Exigente, conforme Neide Furtado, pode ser resumido na seguinte frase: ‘‘Pais, sua exigência sem amor me humilha. Seu amor sem exigência me revolta. Seu amor exigente me engrandece’’.
Serviço: As escolas que quiserem conhecer o movimento Amor Exigente podem entrar em contato pelo telefone 321-6040. As reuniões dos pais acontecem todas as quartas-feiras, a partir das 8 horas, na rua Mato Grosso esquina com avenida JK.

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