Jair é um daqueles brasileiros apaixo nados por carros. Por isso mesmo, nem pensar de es tacionar o Fuscão 1.600, ano 76 ''mas com roda de Brasília e vidro fumê'' onde não exista sombra. Ao chegar a Campo Mourão pela primeira vez, ficou contente ao ver as ruas centrais tão arborizadas. ''Aqui vai ser moleza'', pensou ao entrar na Avenida Irmãos Pereira.

Jair só não contava com um velho costume de Campo Mourão. Todo mundo que trabalha no centro da cidade seja como empregado ou como patrão tem o costume de deixar o carro estacionado bem em frente ao local de trabalho. Foi por isso que ele rodou, rodou, rodou e nada de encontrar uma vaguinha. ''Nem no sol, caramba!'', ressaltou já nervoso.

O apaixonado motorista não estava entendendo nada. A cidade de 80 mil habitantes tinha ruas largas de dar inveja e um trânsito relativamente calmo. ''Mas que diacho de tanto carro parado?'', pensava Jair. Ele ainda aproveitou para dar algumas voltas para conhecer a cidade. Mas horas se passaram e os mesmos carros estavam parados nos mesmos lugares.

Jair até lembrou daquela música do Raul Seixas, ''O dia em que a terra parou'': ''Será que esse dia é hoje?'', questionava, sozinho. Ele abriu o porta-luvas e tirou uma fita cassete, já sem a capinha e um tanto suja, e a colocou no toca-fitas. Enquanto Raul Seixas falava do dia em que ninguém saiu de casa, Jair procurava uma vaga para estacionar.

Cansado, parou o Fuscão num posto de gasolina. Reclamou do problema e perguntou o que estava acontecendo. ''Isso aqui sempre foi assim'', respondeu o frentista. Enquanto limpava o pára-brisa do Fusca a pedido de Jair , o simpático funcionário contou que a prefeitura tinha até liberado o estacionamento dos dois lados da avenida mas não tinha jeito. Faltavam vagas.

O frentista contou também que volta e meia apareceu algum vereador falando na implantação da ''zona azul'', um sistema pago de estacionamento, mas sempre havia reação contrária da comunidade. ''O problema aqui é que o pessoal acha que é dono da vaga'', disse o frentista. Jair coçou a cabeça. Percebeu que o problema era cultural.

''E por que a cidade não faz uma campanha e cria estacionamentos alternativos para aqueles que trabalham na área central?'', perguntou Jair. ''Ih, seu moço, campanha política é só no ano que vem'', respondeu o frentista sem ter entendido a pergunta. Jair não insistiu. Entrou no carro e foi embora. Por falta de vagas, nem parou na loja que estava vendendo em promoção pára-lamas de Fusca Fafá. ''Ah, prefiro o original mesmo'', esnobou, em pensamento.

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