Onde está o lirismo?
Fotos de Albari Rosa
Mendigos há em todo lugar. Curitiba, Nova York ou Paris. Até mesmo em cidades pequenas, onde a miséria está menos exposta. Sua incômoda, repelente presença nas ruas e praças, na porta das casa, revela também a nossa miséria, a miséria de uma civilização que não deu certo. ‘‘Miséria é miséria em qualquer canto’’, berravam os Titãs. Os mendigos costumam ser tristemente silenciosos, mas a miséria, esta sim, grita a plenos pulmões.
Falar de um certo lirismo nas figuras da pobreza, como o fez o ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca, é, sem dúvida, uma colocação infeliz. Na verdade, só reforça o que dizia Joãosinho Trinta. ‘‘Quem gosta de miséria é intelectual’’. Falar sobre ela pode ser pomposo, na ponta de um charuto. Mas não há charme na mendicância, nem lirismo na miséria.
A verdade, nua e crua, é que as legiões de mendigos de todas as idades só enfeiam a paisagem da cidade.
O único mendigo lírico que Curitiba já viu era conhecido apenas por ‘‘Poeta’’ e fez fama nos anos 70 - a roupa em farrapos fedorentos, barba e cabelos imundos, os dentes podres, o organismo devastado pelo álcool. Poeta fora estudante de medicina em Recife, e, abandonado pela amada, virou mendigo no Sul. Sabia de cor Augusto dos Anjos, Castro Alves, Casemiro de Abreu, Drummond de Andrade. Poeta vivia das esmolas conseguidas com suas performances para universitários. Estudantes de letras o reverenciavam. Mas era um mendigo, e nunca foi convidado para almoçar na casa de ninguém.
Talvez haja algum charme na miséria pelo personagem que ficou conhecido como ‘‘Caro Colega’’, que transitava na Praça da Alegria, hoje A Praça é Nossa, no SBT. Dava conselhos ao presidente, jantava com artistas, era amigo de milionários. Era muito engraçado, mas na vida real ninguém, a não ser um desvalido, dividiria um banco de praça com um mendigo.



Não fosse o estado maltrapilho, ela poderia lembrar uma Pietá, debruçada sobre o filho, sofrendo a dor de cada dia. Maria Aparecida de Lima, 23 anos, não será, porém, imortalizada por nenhum escultor. Aliás, ela mal consegue atrair a atenção de uns poucos passantes, que lhe dão moedas. ‘‘Às vezes consigo dinheiro para passar o dia. Comprar pão e leite para comer à noite. Mas têm dias que não consigo nem para a passagem’’. Almoço? Só quando os comerciantes lhe dão sobras de comida. Ela tentou emprego em uma casa, mas a patroa fechou-lhe a porta - por falta de referências e porque tinha que levar o filho Wesley, de três anos, junto. Ela passa os dias pedindo esmolas na Rua Dr. Muricy, no Centro.

Entre as pernas apressadas do mundo, que passa alheio, Anésia Calada de Lima fica exatamente do outro lado da rua, tentando aumentar sua aposentadoria de R$ 120,00. Ela também tem um função mais nobre - mãe de Maria Aparecida (foto acima), fica como que a cuidar da integridade da filha e do neto. Do salário que recebe, paga um aluguel de R$ 65,00. Ela é surda - é preciso gritar para conversar - e tem problemas de visão. ‘‘Deus lhe pague’’, agradece, ao receber um copo com restos de sorvete. ‘‘Quando vêem a gente no chão, as pessoas passam olhando para o outro lado. Outros, distraídos, quase pisam em minhas pernas (ela as expõe, com feridas, para chamar mais atenção).

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