Cuidar de recém-nascidos que, em alguns casos, pesam menos de 600 gramas e aparentam enorme fragilidade não é tarefa simples. A FOLHA passou algumas horas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal do Hospital Universitário (HU) para acompanhar como médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem cuidam dessa clientela tão especial e que só aumenta. Nesse hospital, por conta de ser referência para atendimento às gestações de alto risco, o índice de nascimento de prematuros é de 35%.
O tamanho de João (nome fictício) é de impressionar. O menino nasceu em meados de dezembro, de 27 semanas, pesando 700 gramas. Atualmente, já crava um quilo na balança. Ainda assim, continua pequenino demais para os olhos de quem não está acostumado com o ambiente. A mão do bebê mede 3,5 centímetros, pouca coisa maior do que o diâmetro de uma moeda de R$ 1,00. O pé não passa de cinco centímetros.
Dentro de uma moderna incubadora que lhe oferece a temperatura adequada para a sua idade gestacional, João recebe um tubo na boca que é ligado a um respirador. A máquina manda oxigênio direto ao pulmão. Por esse mesmo tubo, o menino recebe uma droga sintética que substitui a substância natural do corpo humano chamada surfactante. Essa substância é produzida no interior do pulmão e é responsável por manter os alvéolos abertos para a entrada e saída do ar. Ao prematuro, falta o surfactante por conta de seu pulmão ainda não estar completamante maduro.
Uma outra sonda, gástrica, vai até o estômago de João e lhe fornece leite materno. Pelo pé, em uma veia que tem a grossura de um fio de cabelo, o garoto recebe um cateter que vai até a cava superior, pertinho do coração, e lhe fornece uma solução com aminoácidos, proteínas, lipídios e vitaminas. Chegando à cava superior, rapidamente essa substância é bombeada pelo coração para toda a corrente sanguínea do bebê. Tudo o que a criança recebe é rigorosamente calculado por cada grama de peso.
Sofrimento amenizado
Apesar disso tudo, a pediatra e chefe da UTI Neonatal do HU, Lígia Lopes Ferrari, garante que ele não sofre. ''Temos uma metodologia para avaliar se o bebê está com dor. Observamos a face da criança, a agitação e outros sinais. Para tudo atribuímos notas e vamos investigando para descobrir o eventual motivo da dor. Com isso, administramos medicamentos. Porém, não sedamos a criança'', ressalta.
Outras medidas são tomadas para oferecer conforto aos pequenos pacientes: fala-se baixo, modera-se na luz e a criança é envolta por panos de forma confortável, como se estivesse em um ninho.
No entanto, apesar das evoluções tecnológicas e de todo o preparo dos profissionais que atuam em UTIs neonatais, alguns dados ainda preocupam em relação à prematuridade. No HU, por exemplo, a taxa de mortalidade desses bebês em 2008 foi de 12% - número muito inferior aos mais de 25% dos anos anteriores. O percentual de crianças que ficam com sequelas é de 15%. Números semelhantes aos recomendados pela literatura médica internacional.
Além disso, segundo a pediatra Lígia, a tendência para os próximos anos é que continue aumentando o número de nascimentos de prematuros. ''As fertilizações in vitro devem aumentar, com isso aumentam as chances de as mulheres engravidarem de gêmeos, trigêmeos... Esses bebês, muitas vezes, nascem antes do tempo normal, que é de 37 semanas'', explica a médica.

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