Olivina tem uma causa, a luta pela
Silvana Leão
De Londrina
Dorico da Silva
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Dorico da Silva
DEDICAÇÃO AO PRÓXIMO Olivina Leonel (acima e no detalhe) ainda não tem casa, mas luta pelo bem-estar dos vizinhos
Uma casa para voltar todos os dias depois da escola e brincadeiras de infância não fazem parte das lembranças de Olivina Leonel, 39 anos, que adotou o nome Regina. Filha de índio com branca, ela passou os primeiros anos de sua vida acompanhando os pais e os sete irmãos em verdadeiras peregrinações pelas fazendas de café do Norte do Paraná, dormindo no chão e cobrindo-se com encerados emprestados dos terreiros. Abrigos precários, como taperas de palmito, era o máximo que a família conseguia para chamar de casa.
Tantas privações e a perspectiva de um futuro cinzento pela frente poderiam ter conduzido Regina para caminhos menos nobres, mas ela preferiu usar o seu exemplo de vida para abraçar a luta pela dignidade humana. E concentrou seus esforços em um alvo principal: as crianças (talvez na tentativa de evitar que outras passem por experiências tão duras quanto as delas tão precocemente).
Uma das primeiras moradoras do Assentamento São Jorge (zona norte de Londrina), ela é hoje uma líder comunitária e espécie de anjo-da-guarda para as centenas de famílias que habitam o lugar. É à sua casa que as mulheres recorrem quando precisam de medicamentos como analgésicos e anticoncepcionais; e é da tia Regina que as crianças lembram quando a fome aperta.
Todos os dias, às 6h30, antes do ônibus escolar partir, os pequenos estudantes têm leite, pão, bolacha ou mingau para forrar o estomâgo. Na volta, antes de irem para casa, ainda podem tomar sopa, que Regina prepara com um composto fornecido pela Secretaria de Educação do Município e gás doado por um padrinho. Ela também assumiu o compromisso de servir jantar, todas as quintas-feiras, a quem estiver passando necessidade dentro de casa.
Vizinhas, voluntários anônimos, profissionais de diversas áreas, poder público. Várias são as fontes de ajuda que Regina vai arrebanhando ao longo de sua luta. O terreno que ganhou no assentamento para morar com a família já abriga o barracão onde funciona um pronto-atendimento básico de saúde e a cozinha comunitária, que é também uma espécie de sede das atividades coordenadas por ela.
Aqui funciona um pouquinho de cada coisa, define, mostrando alguns blocos de construção e pedras num canto do terreno, onde no futuro (sabe-se Deus quando) será sua casa. Por enquanto ela, o companheiro e os dois filhos moram em um cômodo emprestado. Ter a própria casa não parece ser prioridade para esta mulher, que dedica todo o seu tempo a tentar amenizar o sofrimento alheio. Já tentei parar, mas me sinto vazia. O que eu faço é o mínimo, costuma dizer.
Nos seus planos estão a implantação de uma escola para adultos e adolescentes, em parceria com a Universidade Estadual de Londrina (UEL), e curso de culinária para donas-de-casa, incluindo noções de cidadania e etiqueta. A preocupação com o estudo faz sentido. Regina sabe que só através dele pode aumentar as chances de pessoas que nasceram excluídas de quase tudo terem alguma chance no mercado de trabalho.
Desde o dia em que chegou ao assentamento, ela acompanha a vida das muitas crianças do assentamento. Vou atrás das famílias, vejo se elas têm o que comer, o que vestir, e procuro acompanhar a sua vida escolar. Às vezes preciso chamar a atenção, entrar no ônibus para apartar brigas. Faço o papel de mãe, de tia, de avó, diz ela, sempre bem-humorada.
Regina tem consciência que o trabalho que desenvolve deveria ser preocupação do poder público, mas, mesmo assim, procura não entrar em choque com ninguém. Não podemos dispensar nenhum tipo de ajuda. Todas as doações que recebe são cuidadosamente anotadas em cadernos, guardados por Regina como documentos. O mesmo zelo é dedicado aos livros de controle da Pastoral da Criança, outra das atividades assumidas pela líder comunitária.
O sonho de Regina é que o assentamento tenha, um dia, um núcleo de assistência à criança, onde elas já começassem a ganhar uma profissão. Enquanto elas são pequenas, a gente ainda consegue encaminhá-las para a escola, mas depois de adultos, cada um tem que correr atrás da própria sobrevivência.
O respeito que Regina procura resgatar para as crianças do assentamento ela mesma não recebeu na infância. Conseguiu estudar só até a 4ª série. Aos sete anos, a garota pequenininha foi contratada como babá de gêmeos. Pouco tempo depois começou também a fazer os serviços gerais da casa. Tinha que subir num banquinho para alcançar a pia e o tanque. No final da tarde, o cansaço era tanto que meus olhos fechavam enquanto eu embalava os bebês, recorda, ao mesmo tempo em que as lágrimas tornam-se inevitáveis.
Aos oito anos, ela foi trabalhar em um hotel, levantando todos os dias às 5 horas para limpar os vários quartos. O pagamento por tanto trabalho Regina não chegava a ver. O pai ia uma vez por mês à cidade para recebê-lo. Tudo tem conserto. Eu tive todas as oportunidades para me tornar uma bandida.
O antigo desejo de ser professora só foi reavivado aos 17 anos, quando foi para um convento de Bariri (interior de São Paulo). Ficou ali dois anos, onde conheceu os trabalhos de assistência social realizados pela Igreja e se dedicou principalmente às atividades com crianças e bebês.
Os estudos no convento foram interrompidos por uma visita à família, que na época morava em uma favela em São Paulo. Cheguei lá e encontrei uma situação terrível. Meus pais estavam doentes e todos passando necessidade. Larguei tudo e fui trabalhar para sustentá-los. Regina voltou a Londrina em 85, ainda solteira mas já com um filho nos braços.
A primeira coisa que fez foi entrar como voluntária na Pastoral da Criança. Nos momentos de desespero, pedia a Deus para que aparecessem pessoas dispostas a ajudar. E até hoje tem sido assim. Com valiosas colaborações e muita boa-vontade, ela tem conseguido tornar menos cinzentos os dias de quem, como ela, nunca encontrou muitas facilidades para viver.
Olivina Leonel é um nome praticamente desconhecido no Assentamento São Jorge (zona norte de Londrina), mas se alguém perguntar pela Regina, líder comunitária que luta por uma vida mais digna às pessoas que pouco têm para viver, todos sabem quem é. Espécie de anjo-da-guarda para crianças e adultos, esta mestiça de índio usou como referência sua triste história de vida para abraçar uma luta incansável pelo resgate da dignidade humana. Realizando projetos nas áreas da saúde, assistência social, educação, Regina sonha com o dia em que o assentamento será um lugar mais humano, com um grande centro de assistência onde principalmente as crianças encontrem apoio e carinho. Olivina Leonel, ou melhor, a Regina, é no mínimo um exemplo de coragem e amor ao próximo.
PERFIL
Nome verdadeiro: Olivina Leonel
Nome adotado: Regina
Qualidade nata: líder comunitária
Sonho: construir um centro de atendimento à criança
Característica: espécie de anjo-da-guarda para as centenas de famílias do assentamento onde mora
Lição de vida: lutar pelo próximo
Importância: é da tia Regina que as crianças lembram quando a fome aperta
Prova de solidariedade: ter a própria casa não parece ser prioridade para esta mulher, que dedica todo o seu tempo a tentar amenizar o sofrimento alheio





