Tem olhos que refletem paz. Tem os que refletem luz, esperança. Tem ainda aqueles que transmitem segurança. Os de Ernesto Segantin não conseguem esconder a integridade, bondade e paciência de um jardineiro apaixonado pelo trabalho, a ponto de não descansar mesmo com o corpo de 85 anos pedindo sossego. ''Gosto do que faço. Hoje já não posso mais pegar serviço como antes, mas gosto de fazer jardim''.
Esse amor pela profissão rendeu a ele uma vida feliz e saudável. Comprou terreno, construiu casa, criou 13 filhos, diversos netos, bisnetos e até tataranetos. Há 31 anos mora no Jardim Castelo (Zona Leste) com a esposa Leonilda Silva Segantin, de 72 anos. É ela quem, pelas palavras apaixonadas, define o marido: ''Ele é tudo de bom. Um homem trabalhador, honesto e, apesar das dificuldade financeiras que passamos, eu trabalhando como doméstica, ele como jardineiro, conseguimos cuidar de todos nossos filhos''.
Ernesto já está em solo vermelho há quase 80 anos, desde a época em que não havia ponte entre Londrina e Jataizinho. ''No ano de 1928, eu ainda era criança, foi quando entrei no Paraná. Fui morar em Sertanópolis e trabalhar na roça, onde fiquei até os 42 anos. Só daí que vim para a cidade. Lembro quando não tinha ponte na estrada de Jataizinho prá cá. Passávamos a boiada do mesmo jeito''. Quando veio de Pirajuí (SP), talvez ele não imaginasse o que viria pela frente. ''Vixe, morei em várias cidades desse Paraná. Trabalhei de muita coisa. Abri muita floresta. Fui machadeiro de mata''.
Em Londrina, começou trabalhando como jardineiro da Prefeitura, onde aprendeu a profissão e trabalhou por três anos. Depois mais três, na mesma função, em uma empresa de transportes da cidade. ''Aí eu pedi demissão e fui trabalhar por conta. E desde então eu faço isso.'' Faz e sempre fez com muita dedicação, pelo que conta Leonilda. ''Ele não tinha tempo de nada. Sempre trabalhou, trabalhou, trabalhou.'' Mas não foi difícil descobrir que tanto empenho nos jardins era só fora de casa. ''Casa de ferreiro, espeto de pau. Aqui ele não deixa crescer uma florzinha, gosta do jardim limpo. Só na casa dos outros que ele deixa elas crescerem'', brinca.
Talvez por isso Ernesto tenha demorado tanto para definir qual a flor predileta dele: ''A rosa. Vermelha, cor-de-rosa e branca''. Com leve rubor, ele explicou que a preferência se dava pela beleza da planta, perfume e presença. ''Uma rosa vermelha se destaca em um jardim. Gosto de um pingo d'ouro cercando um canteiro de rosas.''
Sempre com sorriso no rosto, o jardineiro vai se revelando paciente e cada vez mais apaixonado a cada minuto de conversa. ''Não gosto de ver um jardim mal cuidado, fico com raiva. Bato e pergunto se não quer que limpe. Se a pessoa fala que não tem dinheiro, digo que limpar é um preço e cuidar é outro. Aí, pelo menos eu limpo.'' Ele conta que já chegou a dar prazo de pagamento para um cliente que estava sem dinheiro. ''Fiz o serviço e depois eu recebi. Uma casa sem cuidado revela que lá mora gente que não se interessa e nem se preocupa com nada.''
Quando ainda nem era moda se falar nisso, Ernesto já sabia, intuitivamente, o que era cidadania. Ele diz se entristecer com a Londrina moderna. ''Não tem cuidado nas ruas. As árvores estão sem poda, os jardins sem vida. Falta muita coisa aqui.'' Com discurso mais acalorado, defende que os vereadores precisavam estar mais perto da população. ''Eles não vêm nas ruas ver o que precisamos. Ninguém passou aqui depois das eleições. Ganham muito e representam pouco. É isso que penso.''
Mais ameno, pensa sobre a juventude londrinense. ''Falta emprego para as pessoas jovens, isso era o que o governo deveria se preocupar mais.'' Para os jardineiros que estão começando na profissão, ele ensina: ''Eles devem ter e saber usar bem os equipamentos e máquinas. Devem saber que para deixar um lugar bonito é preciso vontade, além da técnica. E o principal é que saibam conquistar a confiança dos clientes''.

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