Olhar de peixe morto
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segunda-feira, 14 de outubro de 2002
Ana Setti<BR>Reportagem Local 
Mãe e filha gostavam de percorrer o roteiro gastronômico da cidade. Nisso concordavam. O difícil era chegarem a um consenso sobre o prato principal. Carne ou massa? Se a escolha recaísse na carne, qual seria a melhor, a vermelha ou a branca? E se fosse branca, qual a mais apropriada, a de ave ou a de peixe? Também em relação às massas, havia controvérsias. A filha preferia o molho branco. A mãe, o vermelho.
Mas isso não era nada, frente a outras decisões muito mais complicadas de serem tomadas. Quando a mãe revelava estar firmemente disposta a, naquele almoço, degustar uma carne, a filha dizia-se totalmente inspirada a, naquele belo dia ensolarado, comer uma massa. No outro domingo, prevenida, a mãe já avisava que o melhor mesmo era escolherem um restaurante italiano, com muitas opções de massa no cardápio. A filha, no entanto, naquele exato momento, sentia-se arrebatada por uma vontade súbita de ir a uma churrascaria.
O melhor, portanto, era irem ao shopping, onde vários restaurantes podiam ser observados à distância, ensejando decisões mais rápidas e menos sofridas. Assim, estavam as duas confortavelmente instaladas e felizes, porque tinham chegado ao consenso, nem tão difícil naquele dia, de comer peixe.
Se a filha, como toda pós-adolescente que se preze, ganhava o prêmio do ''sou contra'', a mãe, magra por natureza (''uma bênção'', diriam as outras mulheres), levava, fácil, fácil, o título de ''sou enjoada''. Adorava a enfeitada disposição das iguarias no prato, mas, se a quantidade fosse grande, corria o risco de se sentir saciada antes mesmo de começar.
Mas, enfim, ''peixe era fácil'', conforme pensava, contanto que não tivesse gosto acentuado, ''de profundezas do mar''. Por isso, resolveu-se por uma truta, de ''sabor delicado, quase neutro'', como explicou para a filha. ''Esse não tem erro'', refletiu, animada. Acostumada a comer esse tipo de peixe em outros lugares, quando ele então se apresentava discreto, elegante, apenas uma lembrança apetitosa de um passado de sinuosidades por águas frias em rios de montanha, não estava preparada para ver o que viu: o peixe por inteiro, da cabeça à cauda. E na cabeça, como era de se esperar, um olho, pequeno, é verdade, mas tão expressivo!
Diante daquele inesperado ''mergulho'' numa realidade tão nua, quanto crua, o que fazer? Como cortar, dilacerar o que dirá comer aquele pequeno ser que a olhava de forma tão acusadora? E não havia como retroceder. Pedir que levassem o peixe de volta e o trouxessem sem cabeça? Não comer? Contentar-se só com os legumes cozidos e o arroz, a rodear o peixe com a inocência dos que não padecem de preocupações existenciais? Ao lado, a filha aguardava, com um sorriso enigmático, a reação materna.
Posicionou-se, então, lateralmente, para evitar ao máximo aquele olhar sofrido e começou a cortar o peixe pelo meio, seguindo em direção à cauda e pedindo desculpas, em pensamento, pela degustação de cada bocado. Quando não havia mais para onde ir, sem enfrentamento direto com ''o olhar'', deu-se por vencida e depôs as armas, ou melhor, os talheres, sobre o prato, a lâmina da faca cobrindo o olho, naturalmente. Contudo, a partir dali, nada mais seria como antes. A expressão ''olhar de peixe morto'', agora e, enfim, estava verdadeiramente entendida.


