- É o 43, 43, 43... Lá, lá, lá ,lá, lá... Pra ficar freguês liga mais uma vez, liga, liga, liga... Olha a menina com a bexiga... Lá, lá, lá, lá...
Provocada, a menina da bexiga, na casa dos seus três ou quatro anos, corre toda alegre em direção àquelas duas figuras esquisitas que mexeram com ela; ameaça jogar a bexiga em um deles, que faz que se assusta, e ela gargalha; imagem fotografada pelo orgulhoso papai sob os olhares embevecidos da mamãe; e, como chegou, a menina sai correndo e gargalhando parque afora feliz como uma criança.
Esta cena, singela como tantas outras, encerra o primeiro turno do trabalho de quatro horas diárias que os palhaços ''Bolão'' e ''Bolinha'' estão prestando para a Sercomtel na 48 Exposição Agropecuária de Londrina. Travestidos de garotos-propaganda da empresa de telefonia londrinense, um fantasiado de número 4 e o outro de número 3, os dois ficaram muito populares na festa mais popular de Londrina.
''Ô, 43, deixa eu tirar uma foto com vocês?'', pede uma moça bonita já fazendo pose entre eles, enquanto um grupo de adolescentes - ''Tá bonito na foto, hein 43!'', ''Deixa um pouquinho pra nós!'' - mexe com a dupla, caminhando em direção ao parque de diversões. ''Olha que gracinha, como tá bonito, hein!'', é o elogio que vem de um trio de garotas pra lá de adolescentes.
São seis horas da tarde. É hora de tirar a incômoda e quente fantasia que estão vestindo há duas horas e que deixa só o rosto à mostra. Eles estão ensopados de suor ou, para usar uma expressão afinada com o evento, mais suados do que cavalo depois de uma manhã calorenta na lida do campo.
''Se é quente? Nossa, bastante, hein!'', diz um aliviado Bolão, saindo de dentro do 3 e exibindo uma surpreendente magreza. ''Aqui dentro deve dar um calor de 40 graus mais ou menos, a gente sai todo molhado'', completa o rechonchudo Bolinha, suando às bicas e se livrando rapidamente do 4.
Eles explicam que essa inversão - Bolinha gordo e Bolão magro - faz parte do espetáculo de palhaços que eles fazem nos aniversários de crianças que animam. Agora eles bebem com gosto um refrigerante trazido por uma recepcionista do estande. Vão descansar um pouco. Às oito da noite eles voltam a entrar novamente no ''forno'' para mais duas horas de animação e alegria porque, fora o calor, nada mais os incomoda, nem o fato de serem o alvo preferido de alguns adolescentes mais desaforados que a toda hora passam em grupo e sempre falam alguma besteira para eles.
''A gente nem liga, tem é que animar o povo, se ficar parado não tem graça; a gente canta, pula, dança, claro que tem muita gozação, tem uns engraçadinhos que querem tirar sarro, principalmente a molecada mais criada, mas a gente leva na esportiva'', conta Bolinha, com o assentimento do Bolão, que acrescenta: ''Vez ou outra passa um e grita: 'Tá pagando mico, 43!?'''.
Bolinha conta que só retrucou às provocações uma vez quando, na função, ''um moleque'' parou bem na frente deles e disse: ''Olha só, devia colocar era uma mulher boa aí e não esses dois tontos pulando!'' Debaixo da algazarra que se fez, Bolinha, feito um peão de rodeio, aguentou firme o solavanco do potrinho e devolveu na bucha: ''Mulher boa pra quê, seu tonto, só aparece o rosto, mais tonto do que quem tá pulando é quem fica olhando!'' O deboche então mudou de alvo e o sarro virou pra cima do provocador.
Por causa desses e de outros desaforos mais pesados é que, no trabalho, eles se revezam com os números, ora um fica com o 4 e, no, período seguinte, veste o 3. O motivo do revezamento? ''A gente reveza só por causa do 4, pra não sobrar só pra um a gozação da molecada'', explica Bolinha. Mas o que é que tem o 4 e o 3 não, pra atiçar assim os gozadores? ''Hum...! Ainda pergunta, eles passam aqui e gritam: 'Ô, 43, você fica de 4; como é que é ficar de 4, é gostoso?'''
É, depois dessa, é melhor mudar de assunto. Bolinha e Bolão são Pai e filho. Bolinha, o pai, tem 45 anos; Bolão tem 20. Quando não estão fantasiados de 43, de palhaço, de coelho da páscoa, Papai Noel ou qualquer outra fantasia, eles se chamam Valdenir e Michel Paz. E são tão afinados que exercem o mesmo ofício: ambos trabalham de auxiliar de enfermagem - Valdenir no hospital da Zona Norte e Michel na Santa Casa.
No hospital da Zona Norte, vez ou outra o auxiliar de enfermagem Valdenir dá lugar ao palhaço para atender a uma clientela muito especial: as crianças que estão internadas na ala infantil. ''De vez em quando eu pego o apito, o nariz e touca de palhaço, que sempre deixo lá, e vou alegrar a criançada''.
Sobre os diversos personagens que interpreta, Bolinha diz que o segredo é ter ''jogo de cintura, saber brincar, saber conversar, passar carinho para as crianças, conquistá-las com gestos; tem que ter talento e jeito de lidar com elas. Trabalhar aqui não é muito diferente de palhaço, a única diferença é que palhaço veste roupa e se pinta e aqui a gente só veste roupa, não se pinta.''

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