Anos 30 no município de Jacarezinho. Na margem esquerda do Paranapanema, a Estação Marques dos Reis, cujo nome identifica o baiano João Marques dos Reis, deputado federal constituinte (1934) nomeado ministro de Viação e Obras Públicas.
Consta do acervo resgatado por Jairo Diniz (reportagem publicada ontem pela FOLHA) a ''planta de ligação'' das duas ferrovias em Marques dos Reis, numa área de 93,2 mil metros quadrados, mostrando o pátio da São Paulo-Paraná aparelhado para receber mais trens em comparação ao da Rede. Ali se dava o transbordo, ou ''baldeação''. Passageiros do sul desciam numa plataforma, passavam por dentro da estação e no outro lado embarcavam no trem do norte.
''Acelera a marcha o trem pelo sertão, e eu só levo saudade no coração. Lá na curva o trem apita, desce a serra e a saudade aumenta'', diz Lauro Maia na marchinha ''Trem de Ferro'', romantismo que não se aplicava à realidade em Marques dos Reis. ''Desse ponto em diante, começava a grande aventura'', testemunhou o médico João Dias Ayres, que fez a baldeação em 1937. Geralmente, os vagões da SP-PR vinham quase lotados da estação de Ourinhos, onde havia a baldeação do trem diário da Estrada de Ferro Sorocabana (EFS) e, adiante, a cada parada se enchiam mais, ''de um povo diferente, queimado de sol'', com roupas encardidas pela terra vermelha e falando de um jeito estranho para os ''engravatados'' que chegavam do Paraná tradicional. ''A segunda classe refluía para a primeira e todos se amontoavam, sofrendo com o calor, o suor e o mau cheiro que vinha dos sanitários entupidos'', rememorou Dias Ayres no livro ''Portal da Esperança - Crônicas do Anteontem''.
O trem diário da EFS chegava a Ourinhos às 7h30 e o da Rede a Marques dos Reis, às 7h50, três vezes por semana (terça-feira, quinta-feira e sábado), revela um gráfico de horários da SP-PR.
Sessenta anos depois, Marques dos Reis parece uma ''estação-fantasma''; no pátio de manobras, materiais e vagões abandonados, um já pegou fogo e o menos destruído serve de moradia; gente que passa e resolve ocupar, fica um pouco e vai embora. Deteriora-se a estação, servindo de alojamento aos trabalhadores e depósito de ferramentas. Ainda passam os trens de carga entre Londrina e Ourinhos, motivo para uma turma da América Latina Logística (ALL) fazer a conservação. Comparados ao padrão ''Teodoro Cooper'' nos primórdios da SP-PR, os trens de até 60 vagões atualmente estão muito acima da capacidade dos trilhos em suportar a tonelagem, observa Jairo Diniz.
Aparecido Paiva tem 80 anos e disse que conhece a estação desde que era adolescente e embarcou junto com o pai, que empreitara uma derrubada de mata em Bandeirantes. ''O bom do trem era que a gente podia andar pelos corredores, ir ao vagão-restaurante tomar uma cerveja, um conhaque'', recorda Sebastião. ''Já em ônibus não é possível; a viagem demora menos, mas ficar sentado o tempo todo cansa''. (WS)

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