Okaeri - readaptação dos dekasseguis no Brasil
Projeto tem o objetivo de ajudar os migrantes brasileiros na reintegração à sociedade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de maio de 2019
Projeto tem o objetivo de ajudar os migrantes brasileiros na reintegração à sociedade
Vitor Ogawa - Grupo Folha 

A nutricionista Patrícia Rumi Adatihara, 24, nasceu no Japão e chegou ao Brasil aos 12 anos: facilidade com que os brasileiros fazem amizade ajudou
Muitos dekasseguis, como são conhecidos os migrantes brasileiros no Japão, retornaram ao Brasil nos últimos anos, mas alguns estavam tanto tempo fora que enfrentaram problemas de readaptação. Outros nasceram em terras japonesas e, mesmo sendo filhos de brasileiros, só conheciam a realidade nipônica. Ao se misturar a cultura desses dois países é possível enriquecer a bagagem de conhecimento da pessoa, mas, ao mesmo tempo, esse choque de costumes, idiomas e tradições resulta em crise de identidade. Quando se vive entre dois mundos tão diferentes isso se perde um pouco. Basta citar que no Brasil os nipo-brasileiros são chamados de japoneses e quando vão ao Japão são chamados de estrangeiros.
O idioma talvez seja um dos fatores que mais influencia na adaptação a um lugar. É ele que ajuda a compor a essência do indivíduo ao produzir a noção de pertencimento à comunidade pelo indivíduo; o direito de se expressar naturalmente; e está intrinsecamente ligado ao conceito de cultura. Sob esse aspecto, as crianças e adolescentes em idade escolar talvez sejam os que mais sofrem, pois ao mudar de País precisam lidar com a barreira da falta de comunicação, com a mudança do sistema de ensino,com as dificuldades de compreensão das aulas, com a grade curricular diferente e com a mudança de ambiente.
A nutricionista Patrícia Rumi Adatihara, 24, sofreu todo esse processo. Ela nasceu no Japão, estudou em escolas japonesas e teve pouco contato com o idioma português. “Quando cheguei ao Brasil eu tinha 12 anos e não sabia falar nada de português. Tive de voltar um ano em relação aos meus estudos no Japão", relembra. Embora estudasse português no Japão uma vez por semana, era difícil para ela aprender alguma coisa. "Eu era criança e só queria saber de brincar. Eu escutava meus pais conversarem em português e entendia um pouco, mas não sabia escrever muito bem”, destaca.
Ela ressalta que um dos fatores que contribuiu para a sua adaptação foi a facilidade com que os brasileiros fazem amizade. “Na escola achei que os amigos são melhores que no Japão. Aqui no Brasil eles são mais legais e foi o que me ajudou, porque mesmo não sabendo falar português eu me comunicava pela mímica”, relembra. No entanto ficou assustada com alguns aspectos brasileiros, como a falta de compromisso pelas regras. “No Brasil não tem muita regra. Lá no Japão era só levantar a mão que o carro parava. Aqui, se eu fizer isso, corro o risco de ser atropelada”, compara.
Aos poucos ela se adaptou ao Brasil, mas ainda sente falta do Japão. “Eu acho que no Japão a educação e a segurança são melhores”, salienta. Tanto que depois de se formar em nutrição, retornou ao Japão por uma bolsa de estudos da Jica. “Fui estudar em Sapporo (cidade ao Norte do Japão). Voltei de lá recentemente”, declara.
REDE DE APOIO
Adatihara participou da cerimônia de lançamento do projeto Okaeri, ocorrido recentemente em Londrina e que tem o objetivo de auxiliar na adaptação ou readaptação das pessoas que voltaram do Japão. A essência do projeto é a divulgação de informações para as famílias dekasseguis em paralelo à construção de uma rede de apoio com troca de experiências entre a comunidade por meio das redes sociais.
O empresário Luciano Matsumoto é, fundador do Comitê Gestor do Integranikkey (grupo que fomenta a união e o engajamento de pessoas com identidade nikkei em Londrina). Ele destaca que o projeto Okaeri é uma iniciativa do coletivo Integranikkey, em parceria com o Consulado Geral do Japão em Curitiba.
Matsumoto explica que o projeto tem como objetivo criar ações concretas. “Aos pais o projeto pretende atuar na recolocação profissional e na área de ressocialização. Também queremos ajudar os filhos, que enfrentam grandes desafios na escola e com a barreira de língua e a adaptação a uma nova cultura", relata. A ideia de atuar com ferramentas digitais da internet surgiu para não se restringir a um único espaço geográfico, para poder impactar um número amplo de pessoas em qualquer lugar do país.
O cônsul-geral do Japão em Curitiba, Hajime Kimura, afirma que a ideia surgiu conversando com filhos de dekasseguis. “Notei que essas pessoas sempre precisam de alguém que os ajude. Eles voltam com uma certa dificuldade de compreensão do português e precisam de auxílio para entender as aulas”, destaca. Ele também ressalta que essas pessoas sentem uma certa saudade do Japão. “Eles nasceram e foram criados no Japão e quando vêm ao Brasil ficam isolados. Eles procuram os japoneses, mas não são japoneses. Pensei em como ajudá-los e veio a ideia de criar um site, pelo qual eles podem achar outras pessoas que estão na mesma situação. As pessoas que já superaram as dificuldades que eles estão tendo. Eles podem conversar, trocar experiências, e organizar alguns eventos através esse site. Isso pode ajudá-los”, afirma Kimura.
Os integrantes do projeto pretendem promover eventos e parcerias com instituições locais e o governo
ORIENTAÇÕES GERAIS
Segundo o assessor técnico no NRE (Núcleo Regional de Educação) em Londrina, Horácio Utiamada, não há muitas informações sobre estudantes filhos de dekasseguis e as suas dificuldades. “Com o projeto Okaeri a intenção é fazer uma pesquisa e levantar essas informações. Acreditamos que a readaptação não tenha sido fácil, com a língua, os conteúdos e mesmo com a socialização. Teria que levantar essas informações junto às escolas e à equipe”, declara.
Utiamada explica que os diretores recebem orientações gerais para receber qualquer imigrante. “A documentação tem que ser analisada pelo setor de documentação do NRE para validação e definição da série correta”, cita. Ele participou da cerimônia de lançamento do projeto e citou que o NRE recebeu alguns alunos com esse perfil, e quando as equipes dos colégios têm alguma dificuldade procuram o núcleo.
"Repassaremos informações e contatos para disponibilizarem no portal do Okaeri", afirma, dizendo que, particularmente, teve contato com dois casos. “Um garoto, cujos pais foram ao Japão, ficou um período revoltado e tivemos que fazer um acompanhamento. Outro caso foi de uma aluna que veio do Japão e teve dificuldades com a língua e com os conteúdos, mas ela logo se adaptou."
URAÍ
Em Uraí (Norte Pioneiro), a secretária municipal de Educação, Mayra Iida Moraes, relatou que anos atrás as crianças que retornavam do Japão sentiam a diferença do ensino, porque lá as aulas são em tempo integral. “Aqui o período das aulas é parcial e a questão de relacionamento pessoal com colegas é bem diferente. Os que chegam aqui são muito fechados, não dão abertura para relacionamentos."
Segundo ela, o trabalho da direção da equipe pedagógica era acolher e integrar aos poucos. “Conforme elas iam se adaptando, interagiam mais. As crianças da sala eram informadas que aqueles alunos eram de outro País e os próprios colegas procuravam acolhê-los. Com o passar do tempo foram se desenvolvendo e se soltando”, descreve. Ela ressalta que tudo foi resolvido só com orientações internas. “Não foi problema para a equipe pedagógica”, garante.
ASSAÍ
Em Assaí (Região Metropolitana de Londrina), o secretário de Educação, Adenilson Wagner Felipe, destaca que o conteúdo escolar é diferente. “Pela idade as crianças que chegam aqui deveriam estar no 5º ano, mas pelo conteúdo elas ficam no 3º ano. Há aqueles que tentam matricular no 4º ano, mas a criança não consegue acompanhar a turma porque não entende o português. Por isso precisa voltar para o 3º ano, para poder acompanhar”, detalha. Ele afirma que não é possível realizar atendimento individual para uma criança que retorna do Japão.
SERVIÇO - Mais informações sobre o projeto no Facebook e Instagram (@projeto.okaeri)

Crianças brasileiras
com autismo
No Japão filhos de brasileiros são diagnosticados erroneamente com TEA (transtorno do espectro autista) por problemas na comunicação, pela falta de conhecimento do idioma japonês, segundo informações da Sabja (Serviço de Assistência aos Brasileiros no Japão). "Pesquisa realizada pela Abic (Action for a Better International Community) mostrava que o número de crianças brasileiras autistas é o dobro do de japonesas. Diante do número discrepante, o Itamaraty, via Sabja, decidiu realizar uma pesquisa oficial. A entidade pesquisadora está atuando desde outubro de 2018 e a previsão de finalização é em outubro deste ano", destaca a coordenadora da organização sem fins lucrativos, Érika Tamura.
"O que ocorre em alguns casos é um problema de adaptação, em que a criança é retirada do seu ambiente (Brasil) e jogada em outro (escola japonesa) em que ela não entende o idioma e a cultura. Como a criança não responde aos comandos, a escola diz para os pais procurarem um especialista japonês para fazer o teste de autismo", relata. Como o teste é em japonês, a criança não consegue responder. "Aí temos o diagnóstico de autismo", explica.
Feito isso, a criança recebe uma carteirinha de deficiente e passa a frequentar uma sala de aula especial. "Se ela não for deficiente, acabará sendo prejudicada, pois o ensino passará a ser o especial. Com essa carteirinha em mãos, os pais têm direito a uma série de benefícios, que inclui ajuda financeira e abatimento nos impostos, e aí uma parte dos pais acaba conivente com essa situação", afirma. "Os casos que atendemos são de pais discordam desse diagnóstico. Estamos aguardando o resultado da pesquisa, para termos números oficiais. Até sair o resultado, o que temos de concreto são relatos de casos que chegam até nós, mas não uma estatística oficial", expôs.Ela explica que com dados oficiais é possível fazer reivindicações aos governos japonês e brasileiro.
A psicóloga Giselly Tainá de Oliveira Oka integra o Projeto Sakura, que presta assessoria psicológica para mais de três mil brasileiros que residem no Japão. Ela atua em Londrina no atendimento de pessoas que regressam ao Brasil, em uma clínica especializada em autismo, na qual atende 90 crianças. “Em menos de um ano recebemos 25 casos com queixa inicial de autismo de crianças que retornaram do Japão, mas não conseguimos fechar com absoluta certeza esse diagnóstico, porque precisamos ver as habilidades no ambiente escolar”, afirmou.
“Quando falamos do transtorno do espectro autista falamos de várias habilidades que a criança não desenvolve ou tem dificuldades de desenvolver. Um psicólogo não pode fazer esse diagnóstico. Quem faz isso é um médico. A criança passa por uma validação rigorosa das habilidades sociais, da fala, dos olhares e outros tipos de interação."
"A criança precisa de um tempo quando passa por mudança drástica. Ela leva de seis a nove meses para se adaptar a esse ambiente. Já a questão do aprendizado do idioma é individual”, apontou. Mas quando a criança não consegue falar o idioma e dizem que é autista, isso gera preocupações. “O atraso no aprendizado da linguagem é apenas um dos aspectos para o diagnóstico”, apontou.


