Tomar cerveja gelada e bater papo com os amigos após um dia extenuante de trabalho. Mais do que uma forma de relaxar, é uma verdadeira mania nacional. No entanto, há uma profissão que une o prazer de beber com a satisfação da necessidade de ganhar dinheiro. O mestre-cervejeiro é o profissional responsável pela qualidade de um dos líquidos mais consumidos pelos brasileiros. Mas engana-se quem pensa que o ofício é apenas prazeroso. A função exige atualização constante sobre novas tecnologias, disponibilidade praticamente total de horário e auto-controle para não cair no alcoolismo.
O mestre-cervejeiro zela pelo processo completo de produção. A quantidade correta e qualidade da matéria-prima e o tempo e temperatura ideais em cada parte do processo de fabricação são essenciais para garantir a textura, gosto e cheiro desejados. O cuidado é explicado pela feroz concorrência do setor. O ramo das cervejarias é um dos mais acirrados na disputa pelo mercado e na guerra de propaganda. A qualidade da água é outro fator importante na feitura do produto.
Em Londrina, uma cervejaria inaugurada recentemente foi atraída principalmente pela pureza da água mineral, proveniente do Aquífero Serras Gerais. Os equipamentos - a grande maioria desenvolvida no exterior - também são importantes para manter a qualidade. O maior responsável pela cerveja produzida na indústria é o mestre-cervejeiro José Di Pietro, 45 anos, está no ramo há mais de 20 anos. Experiente, ele compara a atividade ao exercício da medicina. ''O mestre-cervejeiro é para a cervejaria o que o médico é para o paciente. Se houver qualquer problema no processo de fabricação, o primeiro telefone que toca é o da minha casa'', comenta.
Pietro explica que o mestre-cervejeiro, além de criar o sabor - ''Me sinto o pai da minha cerveja'' - zela por cada etapa do processo de fabricação. As etapas são muitas. Desde a moagem da matéria-prima até o envasamento da cerveja ou colocação do chope no barril, o líquido passa por maceração (impreginação do líquido com os princípios solúveis de uma substância sólida), filtragem, resfriamento, fermentação e maturação. O processo completo leva em torno de 30 dias.
Para cuidar de tantos detalhes, o mestre-cervejeiro precisa prestar dedicação total. A rotina de Pietro, que acumula a função de gerente industrial, tem início às 7 horas. Após conferir os equipamentos, ele inicia a degustação de amostras das diversas fases da produção. Ele ressalta que os testes são feitos na maior parte pela manhã. Após as 16 horas, o mestre-cervejeiro não prova mais o produto. ''Tenho que voltar dirigindo para minha casa'', justifica.
Este auto-controle é importante para que o profissional tenha vida longa no ofício. O risco de tornar-se um alcóolatra existe. Para Pietro, depende da atitude de cada mestre-cervejeiro. ''Vai do bom senso de cada um. Gosto de beber e bebo na minha casa. Não vivo sem cerveja, mas o limite depende do organismo de cada um'', avalia. Além de gostar, José Di Pietro entende bastante de cerveja.
O conhecimento foi forjado em cursos e estudo por conta própria. Por isso, ele ensina ao consumidor leigo que o consumo també exige cuidados simples, que podem garantir a qualidade e o sabor. As providências incluem manter as garrafas em ambiente fresco e protegido do sol. A temperatura ideal para o consumo varia entre 4 e 7 graus. A cerveja deve ser servida em copo de cristal fino, limpo com detergente neutro para evitar alterações no gosto. Se for mantido na geladeira, o copo deve ficar longe de carnes para evitar ser contaminada pelo cheiro. Dois a três dedos de colarinho mantêm a qualidade do líquido.
A tecnologia tem colaborado com a uniformização das cervejas. Na análise de José Di Pietro, o gosto das mais diversas marcas está muito parecido. Ele avalia que cerca de 10% das cervejas têm qualidade inferior. O restante, estariam bastante semelhantes. ''Acredito que a mídia tem muito a ver com quantidade de vendas de cada produto'', declara.

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