Oficina previne a Aids entre os índios
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de julho de 1997
Luka Morais 
Londrina
Participação é a palavra-chave para a prevenção da Aids junto às comunidades indígenas. A opinião é do assessor técnico do Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, Marcos Pellegrini, um dos conferencistas da 1ª Oficina Macrorregional Estratégia, Prevenção e Controle das DST/AIDS para as Populações Indígenas das Regiões Sul, Sudeste e Mato Grosso do Sul. O evento começou ontem e prossegue até sábado no hotel Sumatra, em Londrina.
Falar de Aids, de intimidade, para os índios se prevenirem, só será possível com a participação deles, afirma Pellegrini. Não tivemos ainda um plano de saúde com o envolvimento do índio e é isso que queremos. O assessor do Ministério de Saúde considera as comunidades indígenas vulneráveis à epidemia. Eles têm dificuldade em obter informação, desconhecem o risco e muitos ainda não sabem da existência da doença.
Marcos Pellegrini citou exemplo de um índio que, ao ser informado sobre a doença, questionou: Quer dizer que está acontecendo tudo isso e eu nem sabia como abrir uma camisinha? Deixar as pessoas sem informação, adverte o assessor, é pecar por omissão.
Na opinião de Pellegrini, o mais grave em torno da Aids é o fato de que muitas vezes as pessoas não enxergam a epidemia como problema de todos. Desde o início, ele lembra, falava-se que Aids era problema de um grupo formado por homossexuais, usuários de droga e profissionais do sexo. Demorou para ver que a Aids é um problema de todo mundo.
O Ministério da Saúde, segundo informou o assessor, tem 16 casos da doença entre índios brasileiros. Três deles foram registrados na área de abrangência da Funai de Londrina e os portadores do vírus morreram em 1990, 1992 e 1995. A assistente social Evelise Viveiros Machado, da administração regional da Funai em Londrina, esclarece que, após a notificação dos casos nas reservas, houve o acompanhamento e realização de testes trimestrais para detecção do HIV. Nenhum outro caso foi diagnosticado.
Para o assessor do programa DST/Aids, as 16 notificações nas reservas indígenas não retratam a realidade. Ele informa que, no ano passado, foram registrados no Brasil 36 mil casos da doença. Diante da epidemia, Pellegrini não descarta a possibilidade de terem ocorrido mortes de indíos, contaminados pelo vírus da Aids, que foram consideradas sem causa definida ou que sequer receberam assistência médica, por falta de diagnóstico.
A falta de informação sobre a Aids foi testemunhada por um dos integrantes da mesa, durante a cerimônia de abertura da oficina. O presidente do Conselho Indígena do Paraná, Lourival de Oliveira, afirmou: Não sei como a gente pega Aids. Gostaria de aprender as coisas que os brancos aprenderam, e levar para as comunidades indígenas.
Já o presidente do Conselho Indígena Regional de Guarapuava, Pedro Cornélio Ség-Ség, criticou as diferenças sociais entre brancos e índios e cobrou medidas práticas para a prevenção da doença. Que isso não fique só no papel, porque de teoria estamos até o pescoço.
Representando o Governo do Estado, o diretor-geral da Secretaria de Saúde, Luciano Ducci, que responde interinamente pela pasta, destacou a formação de agentes comunitários indígenas para atuar nas reservas. Neste final de semana, informou, mais um curso de capacitação estará sendo dado em Guarapuava.
Até o final do evento, segundo a coordenadora da oficina, Marlene de Oliveira, será formado um comitê assessor que irá acompanhar as ações nas aldeias e reservas indígenas, levantando dados e levando informações sobre a doença.
Participaram da abertura da oficina cerca de 100 representantes de organizações não-governamentais (ONGs), lideranças indígenas, técnicos e representantes dos governos municipal, estadual e federal. Das tribos indígenas da região Centro-Sul do país, vieram ianomamis, terenas, caiuás, kadiweus, caingangues e guaranis.


