Lúcio Horta
De Londrina
A Mecânica Três Marcos, de Londrina, está com o nome novamente envolvido nas investigações que o Ministério Público de Londrina vem realizando na administração municipal. No primeiro semestre deste ano, a empresa foi acusada de vender, sem entregar, 1,8 mil lixeiras, ao preço de R$ 93,9 mil, para a Autarquia Municipal do Ambiente (AMA).
Desta vez, a Três Marcos teria se beneficiado, com a ajuda de um servidor público, dos serviços da frota municipal. O caso envolve um contrato da prefeitura com a empresa Rodoticket, de São Paulo, que venceu uma licitação para ‘‘implantar e operar um sistema informatizado de gestão da frota de veículos da administração direta e indireta’’.
O edital, publicado no dia 3 de julho do ano passado, estimava um gasto máximo de R$ 4,2 milhões para manutenção da frota, em dois anos de vigência do contrato, e a empresa vencedora teria remuneração de 8% no valor de cada serviço prestado. A Rodoticket foi a única empresa a apresentar proposta e o contrato, de número GC-98/093, foi assinado no dia 31 de agosto do mesmo ano.
A empresa de São Paulo ficaria responsável em disponibilizar um controle eletrônico, através de cartões e cadastro próprio de fornecedores, da frota de 458 veículos da prefeitura. Esse cadastro inclui desde postos de gasolinas até oficinas mecânicas, borracharias, empresas especializadas em vendas de pneus, peças, alinhamentos, balanceamentos, ressolagem de pneus e retífica de motores.
Algumas das oficinas cadastradas, no entanto, reclamaram que os serviços estariam sendo direcionados preferencialmente para a Três Marcos. É o caso de José Sales, proprietário do Posto de Molas Obenaus, especializado em molas de caminhão e que prestava serviços para a prefeitura há mais de cinco anos. Ele foi ouvido no dia 16 de junho pelo promotor Bruno Galatti, de Defesa do Patrimônio Público, e confirmou as acusações à Folha.
Segundo Sales, mesmo serviços de molas, especialidade da Obenaus, eram repassados para a Três Marcos, que comprava as peças na Obenaus e as revendia, com o serviço pronto, para a prefeitura. ‘‘Procurei a Rodoticket, reclamei da situação, mas não adiantou nada’’, afirmou Sales.
Segundo ele, quem decidia para qual oficina os serviços da prefeitura eram encaminhados era José Aparecido Martins Sola, conhecido como ‘Faustão’, motorista da prefeitura que ocupava o cargo de gerente de transporte. ‘‘Quando vinha serviço, dos poucos que vieram, a ordem de serviço era assinada pelo Faustão’’, diz Sales.
O nome de Faustão também surgiu no depoimento de outro dono de oficina, Aroldo Tashima, da Londribens. Ele confirmou à Folha o que disse ao promotor: os serviços de manutenção da frota eram, de fato, direcionados para a Três Marcos. ‘‘Fui muito prejudicado, o Faustão direcionava tudo para lá (Três Marcos)’, reclamou.
Sales informou também que, pelo contrato com a Rodoticket, seria obrigado a pagar uma comissão de 5% para cada serviço feito, além dos 8% já pagos pela prefeitura. Ou seja: a empresa recebe de remuneração 13% do valor bruto dos serviços. A oficina cadastrada teria que pagar ainda à Rodoticket R$ 1,5 mil, divididos em duas vezes, para instalar leitores de cartões eletrônicos, e mais R$ 50,00 de manutenção mensal.
O proprietário da Mecânica Três Marcos, Antonio Marcos Caetano, negou que tivesse qualquer benefício por parte da prefeitura com serviços da frota municipal. Ele reclamou que nenhum serviço da administração municipal é enviado a ele ultimamente. ‘‘Já até liguei para saber se havia algum problema. Até indaguei se o problema era o caso da AMA. Mas disseram que não tinha nada a ver.’’
Caetano admitiu que até pouco tempo recebia muitos serviços da prefeitura, mais do que os concorrentes. ‘‘Meu preço sempre foi o melhor, é só verificar a tabela’’, afirmou. Sobre o servidor da prefeitura José Aparecido Sola, Caetano disse que é um ‘conhecido’, como qualquer funcionário da prefeitura que teve contato. ‘‘Se ele passou mais serviço para mim, foi pela tabela de preço.’
O motorista José Aparecido Sola foi afastado há cerca de dois meses do cargo de gerente de transportes da administração direta e acomodado na AMA. O motivo do afastamento teria sido justamente os rumores de que ele direcionava, de forma irregular, os serviços da prefeitura para a Mecânica Três Marcos.
À Folha, o motorista negou que cometesse qualquer irregularidade ou que recebesse benefício pessoal. ‘‘A gente sempre trabalhou pelo menor preço, a partir da tabela da Rodoticket. E em determinado momento esta oficina (Três Marcos) dava um desconto de 10% no valor do serviço. Por isso, às vezes ia mais serviço para lᒒ, apontou.

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