Oeste é um Brasil de várias línguas
Paulo Pegoraro
De Cascavel
O Oeste paranaense, principalmente na faixa de fronteira com Paraguai e Argentina, é campo fértil para investigações sobre minorias linguísticas e as situações que envolvem sua integração com as pessoas que usam exclusivamente a língua portuguesa. A região é marcada pela forte presença de descendentes de alemães e italianos, oriundos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul e, atualmente, abriga um bom número de brasileiros que moraram no Paraguai e ficaram conhecidos como brasiguaios.
Dominar expressões básicas do alemão, italiano ou espanhol é quase obrigatório em muitos municípios. Já os brasiguaios, geralmente agricultores que migraram para o Paraguai e acabaram dividindo-se em sua nacionalidade, incorporam também o guarani, com o qual tiveram que se familiar no vizinho país. Retornando para o Brasil, carregam marcas linguísticas e culturais que permanecem por muito tempo.
Os filhos de brasiguaios e de famílias de etnias alemã e italiana são afetados especialmente em sua integração escolar. A questão já mereceu estudos profundos de especialistas e motivou uma tese de doutorado da professora Maria Ceres Pereira, 43 anos, do curso de letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Maria Ceres defendeu sua tese em março, na Universidade Estadual de Campinas (SP), onde obteve o título de doutora na área de educação bilíngue.
A professora tratou da questão em uma comunidade de origem alemã, às margens do Lago de Itaipu, na fronteira com o Paraguai. Empolgada, Maria Ceres Pereira agora pesquisa situações que envolvem os filhos de brasiguaios, que no Paraguai lidavam com o espanhol e o guarani, e com o retorno dos pais para o Brasil são matriculadas em escolas onde precisam se adaptar ao português. As crianças apresentam dificuldades na expressão escrita e são vítimas do choque da diferenciação de currículos nos dois países.
A pesquisa em curso envolve crianças de 1ª a 4ª séries do primeiro Grau, principalmente em cidades fronteiriças, mas também em Cascavel. Está inserida no programa de Iniciação Científica da Unioeste e é parte de projeto que envolve outras universidades brasileiras. A professora tem, por enquanto, a colaboração de apenas uma bolsista do curso de letras. O estudo deve demorar dois anos para ser concluído.Filhos de imigrantes e de brasileiros que viveram no Paraguai sofrem nas escolas com as diferenças culturais e linguísticas
Fotos Edson MazzettoATENÇÃO ESPECIALFilhos de brasileiros que viveram no Paraguai recebem atenção especial na sala de aula, devido a mistura do português, espanhol e guarani; abaixo, filhos de imigrantes alemães e italianos: conversa em casa na língua dos pais





