Valmir Denardin
Enviado a São Miguel
do Iguaçu
O único centro de desenvolvimento de tecnologia agrícola do Extremo-Oeste do Paraná está desativado há cerca dois anos. Uma invasão de sem-terra, iniciada em agosto de 97, levou à paralisação dos projetos de pesquisa que vinham sendo feitos havia até 12 anos por organismos públicos e empresas privadas na Fazenda Mitacoré, em São Miguel do Iguaçu (45 quilômetros a nordeste de Foz do Iguaçu).
Sem uma estação de pesquisa, a agricultura da região perdeu parcialmente os referenciais na hora de escolher variedades de sementes, defensivos e até culturas adequadas a seu clima e tipo de solo. ‘‘Os experimentos são influenciados pelo ambiente e o ideal é que sejam desenvolvidos no local onde seus resultados serão aplicados’’, explica o engenheiro agrônomo José Francisco Ferraz de Toledo, chefe-geral do Centro Nacional de Pesquisa de Soja da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), sediada em Londrina.
O clima do Extremo-Oeste se difere dos demais no Estado. A altitude média da região é de 230 metros. Na região de Cascavel (onde estão os centros de pesquisa mais próximos), a altitude média é de 650 metros. ‘‘Além disso, a formação do Lago de Itaipu (em 1982) criou um microclima tropical na região, que exige um centro de pesquisas específico’’, completa o agrônomo Ildomar Fischer, de 33 anos, da Emater (empresa estadual de tecnologia agrícola) em Santa Terezinha de Itaipu.
Numa faixa de aproximadamente 300 mil hectares ao longo do lago, o clima tornou-se mais quente e úmido, sem a ocorrência de geadas, o que está favorecendo a fruticultura tropical e a cafeicultura. ‘‘Com a desativação do centro experimental na Mitacoré, o produtor rural da região passou a ser a cobaia das novas tecnologias’’, ilustra Fischer.
Com 1.098 hectares, a Fazenda Mitacoré foi comprada em 1980 pelo grupo Bamerindus. Em poucos anos, tornou-se uma fazenda-modelo na adoção de tecnologia. Além disso, destinou uma área de dez hectares à pesquisa. Convênios com organismos estatais – como a Embrapa, o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e o Instituto Riograndense do Arroz (Irga) – e as maiores empresa de produção de sementes e insumos agrícolas do Brasil permitiram o desenvolvimento de mais de 200 pesquisas na área, englobando as culturas de milho, soja, algodão, trigo, aveia, arroz e girassol.
Tanta tecnologia reunida acabou favorecendo a própria fazenda. A Mitacoré venceu oito das nove edições que disputou do Prêmio Nacional de Produtividade de Milho instituído pela revista A Granja, uma das principais publicações rurais do País. Enquanto a média nacional não passa de 3 mil quilos do produto por hectare, a fazenda conseguia obter até 8 mil quilos por hectare.
Segundo a administração da fazenda, a invasão da propriedade pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), iniciada em 6 de agosto de 97, levou ao gradativo abandono das pesquisas e da produção altamente tecnificada. O MST tem outra versão. Lucimara de Andrade, de 19 anos, uma das coordenadoras regionais do movimento, diz que, quando houve a ocupação, o centro de pesquisas já estava abandonado havia um ano e meio.
Agora, um movimento regional tenta devolver à Mitacoré sua vocação de pólo de ciência agrícola, com a implantação da Universidade do Agricultor do Extremo-Oeste do Paraná. O movimento reúne prefeituras, escolas, sindicatos e associações empresariais da região, além da Embrapa e do Iapar.
‘‘Queremos dar ao pequeno e ao médio produtor da região, que hoje têm dificuldade de sobreviver da atividade agrícola, o perfil de empresário rural, com o uso de tecnologia’’, afirma o principal líder do movimento, o professor universitário Jair Kotz, diretor do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Metade das propriedade rurais da região são consideradas pequenas, com até 20 hectares.
A consolidação do projeto enfrenta dois obstáculos – um de natureza técnica e o outro, política. Atualmente a fazenda pertence à União, que a encampou após a intervenção federal no grupo Bamerindus, decretada em março de 97. A Folha apurou que a área está em processo de transferência ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para fins de reforma agrária.
O entrave político resulta de um antagonismo histórico entre a elite regional – que lidera o movimento pela Universidade do Agricultor – e o MST. Essa elite acusa o MST de ser contra o projeto e de querer ficar com toda a fazenda. Por seu lado, os sem-terra dizem que o objetivo dos líderes pró-universidade é expulsá-los de toda a área. Atualmente, 93 famílias ocupam a fazenda.Ocupação da Fazenda Mitacoré por sem-terra transforma centro de difusão de pesquisas em acampamento

Fotos Christian RizziFIM DE UMA FASEA sigla do MST estampada em gramado na área de acesso da Mitacoré (acima): antes considerada fazenda modelo, agora a propriedade tem a sua porteira fechada para o desenvolvimento de novas tecnologias para a agricultura

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