Dois vizinhos de Maria de Lourdes e Ermerinda Clemente ouvidos pela reportagem da Folha negam todas as acusações. Pedro Renato Pinheiro, 32 anos, diz que seu pai, Pedro Pinheiro, hoje com 76 anos e pioneiro da região, vive no local há 50 anos. Ele afirma também que as irmãs costumam ''criar confusão sem motivo'' e que um grupo de moradores já tentou organizar um abaixo-assinado para pedir a saída delas da região.
José Francisco, 56 anos, que mudou de Curitiba para um sítio de 1,5 alqueire, diz que a situação real é a inversa. ''Elas é que chingam os vizinhos e nos ameaçam com facão e foice'', afirma Francisco, que era porteiro na Capital e mudou-se para o sítio com a mulher para ''ter sossego''. Francisco e Pinheiro garantem que todos os ocupantes de propriedades limítrofes ao sítio de Maria de Lourdes e Ermerinda possuem documentação que comprovam a propriedade das áreas.
Colonizada por poloneses e com 15,3 mil habitantes, Quitandinha tem uma situação fundiária confusa. Segundo Jorge Luiz Farina, único topógrafo do município, boa parte das terras são devolutas -pertencentes ao Estado, que foram ocupadas irregularmente por posseiros ao longo dos anos. A maioria desses posseiros nunca se preocupou em legalizar a propriedade.
A lei agrária em vigor estipula que, após ocupar uma área rural por pelo menos cinco anos, o posseiro tem direito a requerer o usocapião. No processo para a concessão do documento é obrigatória a assinatura de todos os proprietários de áreas limítrofes, como prova de que o terreno reivindicado não é objeto de litígio. A área rural de Quitandinha é marcada por pequenas propriedades, com tamanho médio de um alqueire.
De acordo com Farina, as irmãs chegaram à localidade de Pangaré Velho depois que a maioria de seus vizinhos já morava ali. Elas são filhas de um casal que nasceu sob a escravidão dos negros (abolida em 1888), em uma fazenda de café em Itajubá (MG), e gerou 15 filhos.
Hoje, sobrevivem do salário mínimo (R$ 180,00) que Maria de Lourdes recebe de aposentadoria e da pequena produção do sítio. Cheio de goteiras, o barraco de madeira onde vivem não tem banheiro e nem eletrodomésticos como televisão e geladeira. (V.D.)

mockup