Ocupação foi estratégia dos governos militares
A ocupação por brasileiros da extensa e fértil faixa leste do Paraguai, que compreende uma área equivalente à soma dos Estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, foi planejada pelos governos dos dois países na década de 70. Na época, Brasil e Paraguai eram governados por militares.
Em 1975, os presidentes Ernesto Geisel (1974-1979) e Alfredo Stroessner (1954 e 1989), assinaram o Tratado de Cooperação Econômica e Segurança Continental. Entre outras medidas, o acordo previa o povoamento do Paraguai com 1,1 milhão de brasileiros. Os principais atrativos eram o preço (menos de 10% do valor cobrado por hectare no Paraná) e a qualidade da terra.
Com uma política agrícola voltada à lavoura mecanizada de monocultura para a exportação e o alagamento de grandes áreas agrícolas com a construção da Hidrelétrica de Itaipu, o Brasil precisava de uma nova fronteira para abrigar os excedentes do campo. A necessidade do Paraguai era colonizar e desenvolver o interior do país, até então tomado por florestas.
O tratado não chegou a atingir completamente seu objetivo, mas 400 mil brasileiros se mudaram para o país vizinho, principalmente entre 1975 e 1980. Essa força estrangeira passou a representar cerca de 10% da população do Paraguai, desmatou, semeou lavouras, cidades e progresso na região de fronteira.
Mas o processo adotado no Paraguai reproduziu o modelo brasileiro e, hoje, os brasiguaios sofrem o mesmo processo de concentração fundiária que os expulsou do Brasil. A constatação é do professor sul-matogrossense Luiz Carlos Batista, de 42 anos. Durante cinco anos, entre 1986 e 1990, Batista estudou o fenômeno dos brasiguaios para elaborar sua tese de mestrado, defendida na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Os latifundiários e as empresas colonizadoras englobaram grandes áreas, mecanizaram as lavouras e dispensaram os arrendatários, meeiros e os bóias-frias, que estão voltando para o Brasil ou inchando a periferia das cidades paraguaias, analisa Batista, que hoje é professor de geografia no câmpus da UFMS em Três Lagoas.
Durante mais de uma década, os brasiguaios permaneceram com títulos provisórios das áreas que compraram. Mas, a partir de 85, uma nova lei agrária proibiu estrangeiros sem documentação de legalizar a posse de terras. Boa parte dos brasiguaios estava nessa situação e acabaram vendendo as áreas.





