DivulgaçãoJoão-de-barro
O complexo de lagos do Igapó em Londrina mantém uma frágil diversidade de aves. Com a possibilidade da construção de equipamentos urbanos e consequente aumento da movimentação em massa no aterro do Lago Igapó II este sistema está ameaçado. A construção de uma ponte entre o aterro e o Lago Igapó II, obra para futura transposição da Avenida Maringá, já expulsou uma espécie, a Coruja buraqueira, que vivia justamente naquela região. Uma espécie de pato também não foi mais avistada.
DivulgaçãoGavião-carijóLondrina não tem um trabalho sistemático de controle e observação das aves que vivem no perímetro urbano. A política ambiental e sua aplicação tem sido prejudicada por injunções políticas. As mudanças de impacto ambiental sempre foram feitas no improviso e à revelia de especialistas, como se pode constatar na história recente. Um exemplo foi exatamente a decisão de aterrar o pântano do Lago II em 88, contra o protesto veemente de biólogos e zoólogos, como o falecido Peter Westcott, da Universidade de Londrina.
DivulgaçãoTico-ticoCom a polêmica aprovação da doação do aterro à iniciativa privada, o problema ambiental em Londrina está colocado em xeque: a comunidade vai ter que decidir que tipo de preservação ambiental deseja. No caso específico, terá que decidir se quer preservar, em pleno centro da cidade, um pequeno tesouro, um sistema de vida animal com grande diversidade - mas extremamente frágil - ou se quer destruí-lo. A evolução da consciência ecológica prega a preservação dos animais, mas sem a preservação dos seus ambientes eles não sobrevivem.
Elisiário SoaresJaçanãEstá claro que uma política ambiental depende de estudos mais amplos, levando-se em conta a preservação de toda bacia do Ribeirão Cambezinho, que por sua vez deve estar integrada ao trabalho de preservação da Bacia do Tibagi. Mas a urgência maior passou a ser o complexo de lagos, com ação do Executivo e Legislativo de abrir caminho para a ocupação ostensiva do aterro. Caso venha a acontecer, a maioria da população de aves que vivem ali será expulsa. O caminho inverso, a preservação da área e ampliação das condições de alimentação, refúgio e segurança das aves é o caminho mais sensato, segundo o biólogo Elisiário Strike Soares.
DivulgaçãoBiguáElisiário, formado pela Universidade de Londrina e atualmente fazendo mestrado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), não tem dúvidas que a interferência no aterro do Lago II vai mudar, novamente, todas as condições do sistema. Pássaros que vivem ali, durante todo o tempo ou ocasionalmente, irão embora, como o Caminheiro-zumbidor, a Polícia-inglesa-do-sul, o Pica-pau-do-campo e outros, que precisam de uma área aberta. O Quero-quero vive nos banhados que circundam os lagos, mas precisa da área do aterro para fazer seus ninhos.
Elisiário SoaresFreirinhaDe agosto de 94 a junho de 95, Elisiário fez, juntamente com a bióloga Daniele Carneiro, um trabalho de observação das aves que vivem nos lagos do Igapó. Foram avistados 75 espécimes, em trabalho realizado em quatro trilhas, uma no Igapó I, duas no Igapó II e uma trilha nos lagos III e IV. A intenção era - e ainda é - a confecção de um guia (com mapas e oficialização de trilhas) para o lazer e a atividade educacional de identificação e observação de pássaros, em pleno coração da cidade. O projeto não encontrou respaldo e os dois biólogos partiram para outras tarefas. Daniele hoje trabalha em projeto de Educação Ambiental da UFPR em Pontal do Sul. Elisiário investe no seu mestrado.
Marcos GouveaQuero-queroO ecossistema do Igapó, embora frágil, é rico em aves. No período de observação houve até um avistamento de um Carcará que, de passagem, aproveitava para procurar alimento por ali. Da mesma forma um Urubu-da-cabeça-preta e um falcão Quiri-quiri. Entre os moradores ocasionais estão a Tesoura, que começou a chegar neste mês de setembro e, depois da reprodução, volta em março para o norte da América do Sul. Da mesma forma o Suiriri, que fica de maio a setembro. E assim, outras aves migratórias, como alguns tipos de andorinhas, o Verão (que vem do Sul), a Viuvinha e o Bem-te-vi-rajado.
Elisiário SoaresSocóMas um dos moradores mais ilustres é o Gavião-carijó, que fica no Igapó o tempo todo e inclusive tem seu território demarcado justamente na região do aterro do Lago II. Uma das mais belas espécies do Igapó é a Garça-branca-grande. Não menos ilustre é o Biguá e o número deles tem aumentado. Eles podem ser vistos descansando no emissário que corta o Lago II ou pescando em todos os lagos. Só não se sabe onde dormem e se reproduzem.
DivulgaçãoQuiri-quiriDe acordo com Elisiário Strike Soares, o ideal hoje seria retirar o aterro, mas o custo seria muito alto. O aconselhável então é investir na arborização de parte da área, mantendo espaços para o lazer das pessoas, como o campo de futebol ali existente. No entanto, o refúgio dos animais, principalmente no Lago II, é imprescindível para a sobrevivência das aves. É o caso das margens do Lago II e III, onde vivem a Saracura-do-brejo, Frango-d’água-comum e o Jaçanã. Antes do aterro, havia mais aves desta espécie, como o Irerê, que foi expulso com o aterramento.
Arquivo FolhaLondrina vai ter que decidir que tipo de preservação ambiental desejaNa verdade, o brejo reage ainda hoje contra a agressão na ligação dos lagos III e II, como atestam as taboas. E os banhados insistem em existir, pois são estes microambientes que são mais ricos em vida e alimentação, como girinos e moluscos. Apesar da agressão humana, a natureza trabalha para manter a cadeia. Na última sexta-feira, protegida por uma vegetação de banhado alta, uma Freirinha fêmea construía e camuflava o seu ninho num galho suspenso sobre o lago. Fim de setembro, começo de outubro. É época de acasalamento e contrução de ninhos.
Marcos GouveaAmpliar a
arborizaçãoElisiário Strike Soares alerta para o perigo da ocupação em massaE é preciso manter a arborização existente e ampliá-la onde for possível. Strike Soares diz que não é verdadeira a suposta competição entre seres humanos e animais num local como Igapó. Hoje mesmo, segundo ele, ambos já convivem. Principalmente os lagos II, III e IV, são abertos e frequentados por muita gente, que encontra ali uma grande opção de lazer. Mas é preciso garantir a manutenção das condições de sobrevivência das aves e pequenos animais.
‘‘É só parar e observar. Ali convivem as aves e as pessoas. Mas não deve haver ocupação em massa, a impermeabilização do aterro ou coisas deste tipo. A questão é dividir o espaço com as aves ou expulsá-las. Mas sem elas, como seria o lago?’’, questiona Elisiário.

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