''Uma vez, minha mãe colocou o óculos de uma vizinha, viu que ficava melhor de enxergar, foi numa loja e comprou um do mesmo grau para ela''. A história, contada em tom de humor por Paulo (nome fictício), é cada vez mais comum, principalmente com o crescimento nas vendas de óculos de grau sem receita médica. Entretanto, revela pelo menos duas preocupações de especialistas: a falta de consulta médica pode mascarar doenças mais graves e o uso de modelos 'piratas' movimenta um comércio ilegal que causa perdas de 30% na receita do setor.
Do ponto de vista médico, esses óculos comprados sem orientação podem causar desconfortos nos pacientes. ''Hoje se compra óculos de grau no camelô. Acontece que essas lentes são de péssima qualidade. Têm distorções que podem causar problemas e dar dor de cabeça em quem usa'', garante o oftalmologista, Aristeu Sampaio Neto. A atendente de uma loja que vende esse tipo de óculos contesta: ''Ninguém nunca veio reclamar, pelo contrário, cada vez mais gente usa''.
O médico enfatiza, no entanto, que o pior é o paciente deixar de se consultar com um especialista. ''Esse óculos sem garantia não vão causar doença grave, só que sem ir ao médico, a pessoa deixa de conhecer a saúde do próprio olho e, de repente, descobrir problemas mais sérios'', analisa.
Ele explica ainda que os modelos falsificados são feitos sempre com as duas lentes no mesmo grau e têm distância pupilar padronizada. ''Cada olho é diferente do outro. Dificilmente uma pessoa vai ter o mesmo grau nos dois, além disto, o olho tem um centro óptico que precisa coincidir com o da lente do óculos. Por isso precisa de um técnico especializado para medir e produzir uma armação e lente particular''.
Além das efeitos na saúde, os óculos piratas também prejudicam a economia. Segundo o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Materiais Ópticos, Fotográfico e Cinematrográficos do Estado, Nicolau Bulgacov, o comércio de óculos perde espaço com pirataria. ''Em Londrina, existem mais de 200 pontos irregulares de venda de óculos, enquanto o número de lojas regularizadas chega a 80'', apresenta.
Para ele, é preciso que os órgão públicos competentes fiscalizem esse comércio de maneira responsável. ''Mesmo havendo legislação específica sobre os cuidados ao se montar uma ótica, nem o governo se preocupa. A gente percebe isso quando vê os incentivos dados aos comerciantes do Camelódromo'', critica.
Para a população, o sindicalista dá o recado: ''É preciso que fique claro: óculos de grau ou de sol, só óticas podem vender. É preciso ter um técnico especializado em óptica para isto, e a maioria desses pontos de venda não tem''.
Preço - Segundo alguns vendedores de óculos piratas ouvidos pela Folha, o preço parece ser o principal argumento de quem compra óculos falsificados. Alguns modelos chegam a custar R$ 5,00. ''Mas isso não pode ser visto assim. A saúde do olho é muito importante e já existem modelos em óticas de R$ 50,00 a 100,00, com formas de pagamento facilitadas, que são de boa qualidade'', garante Sampaio Neto.
Outra opção é conseguir a armação e lentes através do Sistema Único de Saúde (SUS). É preciso ir a uma Unidade Básica, agendar consulta com um especialista e depois - através do Serviço Social da Secretaria Municipal da Saúde - entrar para o cadastro do Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Paranapanema (Cismepar).
''O SUS repassa uma verba para o Cismepar para a aquisição de óculos, só que a quantidade é inferior à demanda, por isso existe uma fila de espera'', explica a diretora executiva da Secretaria Municipal de Saúde, Marlene Zucoli. Ela afirma que, em média, são adquiridos quase 175 óculos por mês, mas ressalta que essa quantidade é dividida entre os 21 municípios de responsabilidade do Consórcio.

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