Buracos, tocos de árvores e mato são alguns dos obstáculos enfrentados por quem anda pelas calçadas da área central de Londrina. Em alguns pontos, a acessibilidade passa longe, como, por exemplo, na Rua Guararapes, perto da Avenida Higienópolis. As calçadas são irregulares, com vários buracos, o que dificulta a locomoção, principalmente de cadeirantes ou pessoas carrinhos de bebê.
O estudante Luiz Octávio da Cunha Pinto, de 22 anos, já presenciou cadeirantes esperarem o ônibus perto de descidas de garagens porque não conseguem ter acesso ao ponto, em função dos buracos. "Aqui um cadeirante vai ter que andar pela rua porque não tem condições pela calçada", diz.
Na Higienópolis, quase esquina com a Humaitá, o toco de uma árvore dificulta a passagem de quem usa cadeira de roda. "Isso é uma vergonha. Este toco de árvore está aí há um tempão e ninguém faz nada. As calçadas em toda a cidade são uma vergonha. A Prefeitura devia cobrar melhorias dos proprietários", reivindica o representante comercial Francisco Barata, de 77 anos. Ele conta que já quase caiu caminhando por uma calçada.
E mesmo onde, aparentemente, os passeios estão em boas condições, a acessibilidade fica em segundo plano. Como é o caso da Rua Araranguá, perto da Avenida Juscelino Kubitschek. O piso está uniforme, foi instalado piso tátil, mas os canteiros construídos em volta das árvores impedem a passagem de cadeiras de rodas.
O mato é outro fator que incomoda quem transita a pé. Na Rua Bahia, esquina com a Rio Grande do Norte, a vegetação toma conta de quase todo o passeio. "É um descaso. A acessibilidade é zero e já faz uns três meses que está deste jeito", conta a estudante Ana Carolina Brognato, de 14 anos.
A responsabilidade pela manutenção das calçadas é dos proprietários dos imóveis e cabe à Secretaria Municipal de Obras e Pavimentação a fiscalização dos passeios. O assessor da pasta Ney Paulo garante que existe fiscalização, mas "não na velocidade que gostaria". A secretaria também atua por meio de denúncias, mas, segundo Ney Paulo, são poucos os registros de reclamações sobre a situação das calçadas. Ele acredita que, com o passar dos anos e a implantação de novos empreendimentos e reformas de imóveis antigos, a acessibilidade será "consolidada".
Desde 2012, o Código de Obras e Edificações do Município determina o padrão de calçada que deve ser adotado. No entanto, a legislação abrange somente novas construções ou reformas. Dentro do quadrilátero central, compreendido pela Avenida JK, Rua Uruguai, Avenida Leste-Oeste e Rua Fernando de Noronha, a legislação previa prazo de um ano, a partir de 2012, para que os passeios fossem adequados com piso tátil. As regras foram traçadas pelo projeto "Calçada para Todos", desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul) e estão em uma cartilha disponível no site da Prefeitura.
Mesmo com o prazo para adequações vencido e pouca coisa ter sido feita, a presidente do Instituto, Ignes Dequech, afirma que as melhorias estão ocorrendo. "A Rua Sergipe, por exemplo, está toda adequada e acredito que, conforme novos empreendimentos forem surgindo ou sendo reformados na região central, as calçadas serão adequadas."
Segundo Ignes, a maior dificuldade é adequar os passeios de ruas fora do quadrilátero central. "Nos casos que não se encaixam em reforma ou construção nova, dependemos da conscientização do proprietário em reformar a calçada dentro dos padrões. E há também os casos em que a pessoa reforma a calçada por conta própria, fora dos padrões. Nestes casos, cabe à (Secretaria de) Obras fazer a fiscalização", acrescenta a presidente do Ippul.
Calçadas adequadas e com piso tátil facilitariam a locomoção do diretor da Associação dos Deficientes Visuais de Londrina (Adevilon), Flávio Cordeiro da Silva, de 54 anos. Ele perdeu a visão há 30 anos, em função do glaucoma, e afirma que é complicado transitar pelo centro da cidade. "Tem pontos em que o piso tátil acaba de repente e daí tenho que ir tateando pelas paredes", conta.
Os buracos também são uma ameaça aos deficientes visuais. Silva já torceu o pé ao descer de um ônibus e cair em um buraco na calçada. E a qualidade dos passeios público é tema recorrente nas discussões da associação. "Essa é uma luta de muito tempo. Tem melhorado, mas ainda há muito o que fazer. Existem leis, mas não são cumpridas", lamenta.

mockup