''Você não acha que está querendo demais, não?'' A pergunta de Jenifer Teodoro Pinheiro, 8 anos, é como um balde de água fria nos sonhos do estudante Willian de Jesus Amaral Valentin, 12, ambos moradores do Assentamento Novo Amparo II (Zona Leste de Londrina). E o sonho do menino é simples: uma área de lazer para brincar no bairro após a obra de urbanização. A falta de perspectiva da pequena Jenifer mostra uma triste realidade: muitos cidadãos não têm noção que oferecer qualidade de vida é uma obrigação, e não favor, do Poder Público.
A melhoria da qualidade de vida das 24 famílias residentes no assentamento deve, no entanto, se tornar realidade. Pelo menos, os anseios mais básicos. As obras de urbanização, que prevêm o arruamento e instalação de rede de água e esgoto, devem ser concluídas em cerca de 20 dias, de acordo com a previsão do pedreiro Mauro Alves, 37, morador do assentamento e operário na obra. ''Depois, então, já vai dar para começar a construir as casas de alvenaria'', constata. A ordem de serviço foi assinada pelo prefeito Nedson Micheleti (PT) em 23 de janeiro. O prazo inicial era de dois meses para conclusão da urbanização e seis para entrega das primeiras 108 casas populares.
O novo bairro deverá abrigar inicialmente as 65 famílias que ocupavam a área no final do ano passado. Hoje, elas se dividem entre o assentamento e hospedagens de favor na casa de parentes e amigos. Segundo os moradores, o novo nome foi escolhido pelo presidente da associação do bairro, Milton Pereira: Jardim Felicidade. ''Peço a Deus que nós tenhamos felicidade quando mudarmos para lá'', afirma a dona de casa Irene Fernandes Valentin, 50, moradora do Novo Amparo II há quase três anos. Apesar da expectativa, ela diz não ter pressa pela mudança. ''Pelo menos não tem que pagar nada por enquanto.''
''A verdade é que temos de ter paciência para esperar'', declara a dona de casa Rosimeire Ferreira, 22. Apesar das privações, os moradores principalmente as donas de casas conseguem enxergar avanços para vencer as dificuldades da vida sem infra-estrutura básica. Para Rosimeire, ter três bicas comunitárias de água quase na frente de casa é praticamente um luxo. ''Antes, a gente tinha de buscar com balde aqui em cima e carregar até lá em baixo'', lembra. A água é a mesma para lavar roupa, cozinha, tomar e dar banho nas crianças.
As deficiências do lugar também incluem falta de energia elétrica e asfalto. O problema da luz é ''resolvido'' com ligações clandestinas na rede, os chamados gatos. Já o asfalto é uma briga que ficará para uma etapa após a urbanização e construção das casas. Por enquanto, as crianças têm de lutar para caminhar no barro para ir à escola nos dias de chuva. ''É difícil para a gente quando chove. Quando chega na escola, os pés estão cheios de barro'', conta Rosimeire.
As crianças, no entanto, não se preocupam com as adversidades. ''Aqui ninguém tem preguiça de ir pra escola, não'', garantiu Merian Caroline dos Santos, 9. A disposição para o estudo é ainda maior quando o assunto é brincadeira. ''Podia ter um balanço, um parquinho'', cobra um. ''Queria um lugar para jogar bola'', reivindica outro. Os sonhos infantis, por ora, estão restritos ao atendimento de necessidades básicas, como uma casa de alvenaria, água, esgoto, energia elétrica. Para os adultos, suficiente para justificar o nome de Jardim Felicidade.

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