A Prefeitura de Londrina decretou situação de emergência por conta dos vazamentos na comporta da barragem do Lago Igapó 2, na transposição da avenida Higienópolis, há um ano, em 28 de fevereiro de 2025. À época, uma série de medidas paliativas foram adotadas pelo poder público, culminando na construção de uma ensecadeira para evitar o esvaziamento do principal cartão-postal da cidade. Mesmo com o projeto das novas comportas pronto desde o ano passado, ainda não há prazo para a solução definitiva sair do papel.

O engenheiro civil José Marques da Costa Branco, responsável pelo projeto da barragem do Igapó 2, foi contratado para desenvolver o projeto das novas comportas. O documento foi entregue à Secretaria Municipal de Obras em agosto de 2025, mas até o momento não há sinalização oficial sobre a abertura da licitação nem sobre o início efetivo da obra.

O decreto assinado pelo prefeito Tiago Amaral (PSD) fala na “adoção imediata das providências necessárias à realização das obras e serviços necessários ao saneamento definitivo do problema do vazamento em uma das comportas” do lago, além da “alocação de recursos financeiros e humanos necessários para a execução das medidas emergenciais”.

Procurada, a Prefeitura informou apenas que o projeto está pronto e que será licitado, sem detalhar valores ou cronograma. Contudo, a administração chegou a estimar um custo de cerca de R$ 1 milhão no ano passado.

Em entrevista à FOLHA, Costa Branco explica que o problema não ocorreu na parte de madeira da comporta, como se chegou a cogitar inicialmente, mas no trilho metálico que enferrujou. “A comporta se deslocou um pouco, ela abriu e começou a vazar. Deu aquele problema todo”, relembra.

Imagem ilustrativa da imagem Obra na barragem do Igapó 2 segue sem data para começar
| Foto: Roberto Custodio

A ensecadeira instalada a montante (no Igapó 2) da barragem permanece como solução provisória. De acordo com o engenheiro, trata-se de uma estrutura emergencial que poderá, inclusive, ter seu material reaproveitado quando a obra definitiva começar, já que novas ensecadeiras serão necessárias para execução dos serviços.

O novo projeto prevê a substituição das comportas e a criação de um sistema que permita manutenção futura sem necessidade de esvaziamento do lago, chamado de stoplog. As comportas serão retiradas do canteiro central da avenida Higienópolis e realocadas sob a calçada, no lado voltado para o Igapó 1.

Alagamentos

Além do projeto das comportas, Costa Branco foi contratado para estudar medidas de mitigação das inundações na rua Joaquim de Matos Barreto, ao lado do aterro do Igapó. O relatório já foi entregue à Prefeitura e identifica três fatores hidráulicos que contribuem para os alagamentos.

O primeiro é o assoreamento, que tem influência no escoamento, mas não é apontado como determinante. O segundo, considerado central, é a redução das áreas de infiltração ao longo das últimas décadas. O estudo indica que aproximadamente metade da área analisada foi impermeabilizada desde os anos 1970, acelerando a chegada da água aos cursos d’água e elevando os picos de vazão.

A consultoria também analisou dados históricos de precipitação e não encontrou aumento relevante no volume anual de chuvas. Para o engenheiro, a mudança está na intensidade concentrada em períodos mais curtos. “Aquilo que demorava às vezes três dias para chover, às vezes em uma hora chove a mesma quantidade”, afirma.

O estudo identificou ainda um fator estrutural relevante: a rua está apenas cerca de 60 a 70 centímetros acima da crista da barragem do Igapó 2, o que a torna vulnerável quando o nível da água sobe rapidamente. Em episódios mais severos, ainda ocorre refluxo pelas tubulações de drenagem, fazendo com que a água retorne à via em vez de escoar.

Entre as medidas propostas estão o alteamento da pista de caminhada para funcionar como contenção superficial temporária, a instalação de comportas automáticas nas tubulações para impedir o refluxo e o rebaixamento do aterro, recuperando parte da área natural de inundação.

O estudo também aponta a possibilidade de reduzir em cerca de dez centímetros o nível do Igapó 2, ampliando a capacidade de armazenamento antes do transbordamento, além da implantação de uma estrutura subterrânea de retenção — semelhante a uma cisterna — na rotatória da avenida Maringá, para funcionar como reservatório temporário em períodos de chuva intensa. Segundo Costa Branco, o conjunto dessas intervenções cria “pulmões” hidráulicos que retardam a chegada da água ao sistema e ampliam o tempo de resposta antes da inundação.

Além das intervenções estruturais, o relatório recomenda que a Prefeitura invista na coleta de dados mais precisos para embasar decisões futuras. Para o engenheiro, hoje há lacunas importantes nas informações disponíveis, especialmente sobre a intensidade das chuvas em curtos intervalos de tempo e sobre o comportamento da água no solo.

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