Portando cartazes com frases que tentavam sensibilizar a população para o difícil dia-a-dia dos obesos, um grupo de 20 pessoas foi para o Calçadão na tarde de ontem para chamar a atenção para a longa espera na fila da cirurgia de redução de estômago através do Sistema Único de Saúde (SUS). A única instituição credenciada em Londrina para operar pelo sistema público é o Hospital Universitário (HU), que realizou o último procedimento no mês de abril. A justificativa para a demora na realização da cirurgia é a dificuldade de contratar anestesistas.
''Morrer é quase nada. Horrível é não viver'', dizia um dos cartazes levados para a rua ontem. A frase traduz o drama vivido por cerca de 1,2 milhão de pessoas no País. Uma delas é Tereza Luciana da Silva, de 38 anos, que está em quarto lugar na lista de pacientes prontos para a cirurgia. Ela passou a conviver com a doença há cerca de 10 anos, e há 6 não consegue mais emprego. ''Perdi o emprego por causa da obesidade, e sofro com o inchaço nas pernas, a pressão alta e falta de ar'', explica.
Uma das líderes do grupo, Eliana Mazieiro, 39, chamava a atenção para o preconceito vivido pelos obesos quando um homem passou perto do grupo e sugeriu que em vez de reivindicar o tratamento cirúrgico, tomassem um conhecido produto para emagrecimento. A reação do transeunte irritou os integrantes do grupo. ''É sempre assim, a gente não pode nem sair na rua.''
Eliana lembrou que havia a promessa de o HU realizar pelo menos duas cirurgias por mês, mas do início do ano até agora foram realizadas cinco. ''Enquanto isso nossa vida está em risco.'' Eliana relatou que o grupo perdeu uma companheira no mês de julho, vítima de efizema pulmonar decorrente de uma gripe. ''O fato de ela ficar a maior parte do tempo deitada contribuiu para que o quadro se complicasse.''
O cirurgião do aparelho digestivo Antonio Carlos Valezzi, coordenador do Programa de Tratamento Cirúrgico da Obesidade Mórbida do HU, informou que resolvou não internar mais os pacientes com cirurgia marcada até que o hospital resolva seus problemas estruturais. ''A última pessoa que foi operada ficou duas semanas internada, porque a cada dia surgia um problema, como falta de leito na UTI e falta de anestesista. Isso é muito perigoso, porque enquanto está no hospital aumentam as chances deste paciente adquirir uma infecção.''
De acordo com o médico, atualmente há quase 60 pacientes prontos para ser operados, com todos os exames pré-cirúrgicos realizados, e mais cerca de 300 em fase de preparação. ''São poucos hospitais credenciados pelo Ministério da Saúde para fazer a cirurgia pelo SUS. No Paraná são apenas três, em Londrina, Maringá e Curitiba.'' Ele afirmou que a cirurgia é considerada atualmente o único método eficiente para tratamento dos obesos mórbidos.
Segundo a assessoria de imprensa do HU, a instituição realiza testes seletivos para contratação de anestesistas de três em três meses, mas não aparecem interessados, ou quando aparece, acabam não assumindo o cargo. O SUS oferece um salário de R$ 2 mil por 20 horas de trabalho por mês. Segundo levantamento feito pela FOLHA, na rede particular os rendimentos podem chegar, pelo mesmo período de trabalho, a R$ 10 mil. Atualmente o hospital está fazendo um cadastramento de profissionais de todo o Brasil para tentar contratar por empelho (o profissional recebe por cirurgia realizado).

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