Obeso faz fila para reduzir estômago
Órgão é grampeado, ficando do tamanho de um limão; capacidade é reduzida para 30 ml e paciente se sente saciado com pouca comida
Marccio W. Varella
Marcos NegriniEsforço conjuntoA psicóloga Sônia Rossini, Helaine (paciente), o médico Nasser, a psicóloga Vitória Rufini, Ralph (paciente) e a psicóloga Cristina de Benedetto Já existe em Maringá uma nova técnica cirúrgica para o tratamento da obesidade mórbida. Através da redução do tamanho do estômago, o paciente come menos e pode perder os quilos que tem a mais. Cinco pessoas já foram operadas com sucesso; outras 20 estão sendo preparadas para a operação. Por enquanto, o tratamento é restrito a pacientes particulares. Mas dentro de pouco tempo estará à disposição no Sistema Único de Saúde.
É portador de obesidade mórbida o paciente que tem índice de massa corpórea acima de 40. O índice é calculado levando-se em conta a altura e o peso da pessoa. Uma mulher que tem 1,60 metro de altura e pesa 80 quilos, por exemplo, tem índice de massa corpórea 32, o que não caracteriza a obesidade mórbida.
Quem trouxe essa técnica cirúrgica para Maringá foi o médico Daoud Nasser, 32 anos, formado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ele é professor de cirurgia do aparelho digestivo da Universidade Estadual de maringá (UEM). Daoud explica que a doença é chamada de mórbida porque é crônica, caracterizada pelo aumento de peso progressivo. ‘‘Pesquisas de órgãos sérios mostram que o número de obesos aumenta ano após ano. O risco de mortalidade também cresce muito. Eles têm problemas de coração, diabetes, vesículas, doenças articulares’’.
O método começou a ser aplicado no primeiro semestre do ano passado em Maringá por Daoud e pelo médico Eduardo Agosti, que morreu no início do ano. Os dois aprenderam a técnica, inventada há cerca de 10 anos nos Estados Unidos pelo médico R.F. Kapella, com o professor da Universidade de São Paulo, Arthur Garrido. O primeiro paciente de Daoud foi Dirceu Morais Eusébio, que entrou na sala de operação com 198 quilos. Sua última pesagem foi há 40 dias: ele perdeu exatos 100 quilos.
A cirurgia, cujo preço não foi divulgado pelo médico, dura de quatro a cinco horas. Com um equipamento chamado ‘grampeador’, o estômago é seccionado e grampeado, ficando do tamanho de um limão. O estômago normal tem capacidade de armazenagem de dois litros de comida. Com a cirurgia, a capacidade é reduzida para 30 ml, podendo se distender até 100 ml depois de um ano, quando a quantidade de comida consumida pela pessoa fica estabilizada.
Um anel de silicone de 3 centímetros de diâmetro é colocado na saída do estômago para o intestino. ‘‘O estômago é ligado diretamente ao intestino e com a câmara gástrica reduzida, o paciente vai comer menos. Um dos segredos do sucesso da cirurgia é que o ex-obeso mórbido terá de mastigar pelo menos 30 vezes o bocado de comida. Se não mastigar direito, o alimento não chegará ao intestino e o paciente sentirá dores e terá vômitos’’, explica Daoud. ‘‘A pessoa passa a viver bem, se sentindo satisfeita com pouca comida’’.
Preparo Pelo menos um mês antes da cirurgia, o paciente é submetido a um preparo psicológico com profissionais experimentados da cidade. A pessoa passa ainda por nutricionista, endocrinologista e pneumologista, onde faz exames e consultas. Daoud não ainda não sabe quando, mas até o próximo ano ele pretende aplicar essa técnica no Hospital Universitário, da UEM, único hospital público da cidade e que atende pelo SUS. Maringá é a única cidade do interior do Estado onde essa técnica é aplicada.
Esperança Na terça-feira, a funcionária pública Claudete Jandrey, 30 anos, com 125 quilos, irá se submeter à cirurgia. ‘‘Tenho fé e esperança de que tudo vai dar certo, estou me sentindo tranquila e estou bem preparada’’, disse ela na semana passada, durante a reunião que comemorou o primeiro aniversário desta técnica cirúrgica em Maringá.
Junto com ela, participaram do encontro, três pacientes do médico Daoud Nasser operados em 97 e neste ano. A pedagoga Helaine Patrícia Ferreira, 24 anos, solteira, operou no dia 7 de abril deste ano. Entrou na sala de cirurgia com 122 quilos. Pouco mais de um mês depois havia perdido 12 quilos.
‘‘Antes era complicado, fiz várias tentativas de regime que não deram certo. Sou gordinha desde criança, tenho pai e mãe gordos. Mas agora minha vida mudou radicalmente. Sou feliz, como o estritamente necessário, mastigo as 30 vezes ou mais recomendadas pelo médico. Por enquanto, só estou tomando sopas e outros líquidos’’, afirmou.
O estudante de direito Ralph André da Costa Santos, 23 anos, de Ibaiti, operou em 21 de março deste ano. Tinha 121 quilos e hoje está com 20 quilos a menos. Um de seus maiores problemas era o relacionamento com as mulheres.
‘‘Hoje estou ótimo, me dou bem com todas elas. Há uma semana estou comendo sólidos, no almoço e na janta: três colheres de arroz, uma colher de caldo de feijão, um pedaço de carne. Ainda assim acho que estou comendo muito. Me sinto plenamente satisfeito com a quantidade que como. A minha doença era incontrolável. Hoje estou me sentindo cada vez melhor’’.
Rossana Rufini, paulista de Mirante do Paranapanema, 40 anos, professora, entrou com 145 quilos na sala de cirurgia no dia 17 de dezembro de 97. Ela tem 1,70 metro de altura. Hoje está pesando 93 quilos. ‘‘Sempre fui gordinha, mas antes da cirurgia comia normalmente, sem exagerar. O problema é que a doença é gradativa e crônica. Hoje me satisfaço com duas colheres de arroz e duas de feijão e bife de fígado. Como de tudo, inclusive doces e tenho mais vinte quilos para perder’’, revelou.

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