Lobato - Os 60 anos da morte de Monteiro Lobato, transcorridos em 2008, a FOLHA associou a um fato inédito nos Estados Unidos: a eleição do primeiro presidente negro naquele país. Algo tão inconcebível no século anterior, que inspirou o ''romance americano'' de Lobato, em 1926, imaginando a ascensão negra somente em 2228, tal era a rigidez do segregacionismo, fazendo presumir que se manteria por séculos.
''Choque das raças'' inicialmente, o título seria mudado para ''O presidente negro'', em que o brilhante doutor em Ciências James Roy Wilde é eleito o 89º presidente estadunidense. Mas, em 4 de novembro de 2008, há um corte de 220 anos da ficção para a realidade, ao eleger-se o 44º presidente, Barack Hussein Obama, filho de um imigrante queniano negro e uma norte-americana branca, formado em Harvard, a melhor universidade do país.
Coincidindo com a vinda do ''presidente negro'' ao Brasil, o romancista também está em alta no noticiário, porque continua a gerar fatos novos, apesar de morto. Taubaté, a cidade onde ele nasceu, é declarada capital nacional da literatura infantil; o Sítio do Pica-Pau Amarelo será desenho animado pela primeira vez.
E não cessou o debate sobre a obra infantil de Lobato, se é racista ou não, desde que o Conselho Nacional de Educação desaconselhou, ano passado, a leitura de ''Caçadas de Pedrinho'' nas escolas públicas. Mas a discussão não é novidade absoluta. Naquele que seria o seu primeiro e único romance, escrito para ser ''editável nos Estados Unidos'', Lobato plasmou um epílogo que assustou editores na terra de Tio Sam.
''Meu romance não encontra editor. Falhou a Tupy Company. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso mal possa este povo, coletivamente, combater a sangue frio o belo crime que sugeri'', escreve de Nova York (5/9/1927) ao amigo Godofredo Rangel (*). ''Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros. Os originais estão com o Isaac Goldberg, para ver se há arranjo. Adeus, Tupy Company!''
Já era adido comercial brasileiro em Nova York e sentia-se frustrado no sonho de abrir uma editora por lá - a Tupy Publishing Company -, ante a resposta de William David Ball, editor-chefe da Palmer, a quem enviara o texto em inglês. Ball exalta a imaginação de Lobato, reconhecendo-a divertida, rica e criativa. ''Infelizmente, porém, o enredo central é baseado em um assunto particularmente difícil de se abordar neste país, porque ele irá, certamente, acender o tipo mais amargo de sectarismo e, por esta razão, os editores são invariavelmente avessos à ideia de apresentá-lo ao público leitor'', estende-se a resposta. Nem mesmo o enredo ''300 anos no futuro iria amenizá-lo na cabeça dos leitores negros'', sentencia Ball.
O romance, ''meio a (H. G.) Wells, com visão do futuro'', era o fundamento de um projeto pessoal amplo, confidenciara Lobato a Rangel. Sinopse: ''...o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente preto! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio dos raios N, inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes deem pela coisa''.
(*) Em ''A Barca de Gleyre'', cartas de Monteiro Lobato a Godofredo Rangel, de 1903 a 1948. Editora Brasiliense, 14.a edição - 1972.

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