OAB divulga depoimentos sobre Comurb
Lucília Okamura
De Londrina
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Londrina tornou público ontem depoimentos colhidos pelo Ministério Público (MP), que investiga irregularidades na administração pública. Cópias dos depoimentos foram conseguidas pelo presidente da OAB, Lauro Zanetti, no final da semana passada. A Ordem dos Advogados decidiu obter as cópias com o objetivo de divulgá-las para a opinião pública, de acordo com proposta de tornar as denúncias de irregularidades mais claras para a comunidade.
Entre as mais de 20 pessoas que prestaram depoimento, algumas falaram em desvio de dinheiro para pagamento de campanha eleitoral. É o caso do funcionário público Edson Alves da Cruz, ex-chefe de compras da Autarquia do Municipal do Ambiente (AMA). Ele prestou depoimento em agosto e comentou que a determinação de levantar recursos na autarquia vinha da parte de Eduardo Alonso (ex-diretor administrativo-financeiro da Companhia Municipal de Urbanização), que representava o grupo político do deputado federal José Janene, e de Gino Azzolini Neto, na época secretário municipal de Governo, que representava o grupo político do prefeito Antonio Belinati.
Segundo Cruz, Azzolini Neto participava ativa e diretamente do esquema de desvio de recursos da AMA, enquanto que Alonso seria o mentor da maioria das fraudes ocorridas na autarquia.
No mesmo depoimento, Cruz contou que ouviu dos diretores da AMA e de Alonso que a empresa Tâmara havia financiado R$ 400 mil para a campanha eleitoral de Janene, Antonio Carlos Belinati (deputado estadual) e ao governo do Estado. Por esse motivo, segundo ele, foram feitos contratos entre a Tâmara e a AMA, explicando porque houve um aumento absurdo no valor dos contratos. O MP começou as investigações na administração justamente no contrato entre Tâmara e a autarquia, devido a suspeitas de superfaturamento nos serviços de capina e roçagem.
No dia 7 de dezembro foi a vez do diretor da Comurb, Mário Sérgio Orcioli prestar depoimento. Ele contou ao Ministério Público, segundo cópia do depoimento obtido junto à OAB, que lhe foi pedido para colocar cinco cheques em seu nome para que pudessem ser descontados. Os cheques, no valor de cerca de R$ 300 mil, foram descontados e, afirma Orciolli, entregues a Carlos Junior (Cassimiro Zaveruchia). Ele seria, segundo Orcioli, braço direto do prefeito municipal Antonio Belinati, tendo em vista que nas campanhas eleitorais ele estava sempre junto com o prefeito.
Outra pessoa que se refere a campanha eleitoral é o engenheiro civil Ivano Abdo, proprietário de uma empresa de Curitiba que leva seu nome e que teria vencido licitações da prefeitura. Ele contou que entre fevereiro e abril deste ano, Eduardo Alonso pediu três ou quatro contribuições em dinheiro.
Alonso justificava que o declarante estava prestando muitos serviços à Comurb e que ele necessitava de recursos para cobrir despesas de campanha eleitoral; que se tratava de despesas de campanha de 1998, inclusive afirmando que havia débitos em banco, diz um trecho do depoimento de Abdo.
Outro empresário de Curitiba, Luiz José de Oliveira Kesikowski, disse, em depoimento prestado no dia 7 deste mês, que foi procurado por Arion Cruz Santos para participar de licitações em Londrina. Segundo Arion, o declarante receberia os pagamentos e devolveria a Eduardo Alonso a maior parte dos valores, retendo consigo uma pequena parte.
Conforme depoimento de Kesikowski, o trabalho de sua empresa consistiria em compilar dados que fossem fornecidos pela Comurb. Arion deu a enteder, sem explicitar, que a verba que fosse devolvida destinaria-se a compor um caixa, possivelmente campanha eleitoral. Quando Arion foi ouvido pelos promotores, disse que desconhecia por completo quaisquer irregularidades envolvendo as licitações da Comurb.
O MP investiga, desde fevereiro, irregularidades em contratos licitatórios realizados principalmente na AMA e na Comurb, e cujos valores giram em torno de R$ 15 milhões. Os promotores (Cláudio Esteves, Bruno Galatti e Solange Vicentin) já comprovaram que vários contratos foram fraudulentos.
A Folha conversou com Alonso por telefone. Ele disse que, por orientação de advogados, não iria dar entrevistas sobre o caso, afirmando apenas que cumpria ordens superiores. Através de sua assessoria de imprensa, Belinati disse esperar que as investigações do MP sejam concluídas o mais rápido possível para que os culpados sejam punidos exemplarmente. A Folha tentou ainda falar com Azzolini Neto e Carlos Junior. Eles não foram encontrados.





