A Subseção de Cascavel da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) está denunciando a existência de uma ‘‘lista negra’’ de advogados que defendem presos acusados de envolvimento com o tráfico de drogas. Segundo a OAB, a lista teria surgido estimulada por setores da sociedade, para que os profissionais relacionados não sejam procurados para defender outras causas, como forma de represália. O presidente da subseção, Maurício Monteiro de Barros Vieira, disse ontem que o fato está sendo comunicado ao Ministério Público e Conselho da Ordem. Segundo ele, os estimuladores da lista podem ser processados.
A Folha obteve depoimento de um empresário do ramo de radiodifusão, que prefere não se identificar. Segundo ele, ‘‘muita gente está mesmo disposta a boicotar estes advogados’’. O empresário, pai de adolescente dependente de drogas, diz que os defensores de traficantes ‘‘visam unicamente o dinheiro, sem considerar o lado moral e o fato de famílias serem destruídas pelos traficantes’’.
Policiais também se queixam, informalmente, de que teriam feito flagrantes contra traficantes que acabaram sendo libertados pela atuação de advogados. Ontem, a subseção da OAB divulgou Nota Oficial, informando que o assunto foi discutido em uma assembléia. O presidente da subseção, Maurício Monteiro de Barros Vieira, afirma que as pessoas que estão estimulando a lista negra têm ‘‘mentalidade retrógrada, discriminadora e eivada da falta de conhecimento das causas, complexas e profundas, de tão grave mal’’.
Vieira admitiu ser compreensível a preocupação e o desespero de famílias que têm pessoas envolvidas com drogas. Mas acrescenta: ‘‘O desespero não pode conduzir a atos insensatos’’. Segundo ele, seria muito mais produtivo questionar o Poder Público, estadual ou federal, sobre uma política eficiente de segurança pública. ‘‘A segurança pública só está assegurada a nível constitucional, não se concretizando na prática’’, afirma. Ele lembra que a própria OAB vem insistindo na necessidade de instalação de uma delegacia da Polícia Federal em Cascavel, o que não ocorre.
A nota da OAB destaca que o grave problema do narcotráfico deve ser enfrentado ‘‘com atos sensatos, eficientes, inteligentes e corajosos’’, entre os quais não está a discriminação de advogados cuja atuação é de fazer cumprir ‘‘o amplo direito à defesa, a fim de que não se cometam injustiças e não se leve à prisão pessoas inocentes’’.
O documento frisa ainda que ninguém é considerado culpado antes do julgamento final pelo Poder Judiciário e após esgotados todos os recursos cabíveis. A subseção quer que o Ministério Público e os conselhos estadual e federal da OAB apurem os fatos relacionados à lista negra, para que seja possível processar criminalmente seus autores.
A origem da polêmica está em uma manifestação do deputado estadual Edgar Bueno (PDT), que reconheceu publicamente, aos prantos, ter um filho adolescente dependente de drogas. Outros pais com o mesmo drama familiar também se manifestaram em seguida, passando a ocorrer cobrança de atuação mais enérgica da polícia. Cascavel é ponto de distribuição e passagem de drogas trazidas do Paraguai. Além do minipresídio da 15ª Subdivisão Policial ter mais de 60 presos (25% do total de encarcerados) por envolvimento com o narcotráfico, nas últimas semanas houve grande número de prisões e apreensões.

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