O Zé e a mala
O Zé Roberto era o tipo de pessoa que chegava nos lugares e armava a maior festa. Ninguém passava por ele sem receber um elogio. Não perdoava nem portador de deficiência física. Mas tudo com um jeitinho para não a agredir, dizia ele. Até o dia em que perdeu a pose. Chegou cabisbaixo, não fez comentários, uma carranca de botar medo. Acabou abrindo o coração para o colega do boteco da esquina que, metido a psicólogo, sempre tratava de apresentar uma solução às questões que roubavam o sossego dos fregueses mais chegados.
Só que para o problema do Zé estava difícil achar uma saída. Operário há 25 anos numa metalúrgica, pela primeira vez enfrentava a crise da falta do pagamento. O salário estava atrasado há três meses. Ele já tinha negociado no mercadinho do bairro o pagamento das compras do mês até que caiu no descrédito. Os remédios para controlar a pressão da mulher, a Izaura, já estavam pendurados desde dezembro. O farmacêutico chegou a avisar que daqui para frente não tem mais crédito.
Até a molecada, que todos os anos voltava às aulas com tudo novo, teve que abrir mão do privilégio. Os três filhos pequenos encararam o uniforme surrado e os tênis em pé-de-guerra, como comentou dona Izaura. Mas o que fazer se um homem não falta ao trabalho, desempenha a função, cumpre as obrigações e, no fim do mês, salário que é bom nada?
Mas o Zé não desanimava. Semana passada ficou maquinando durante a noite, buscando uma saída, um jeito de arrumar uns trocados para acertar parte das contas. Lembrou-se do colega que tem o maior gosto pela leitura e vivia oferecendo uns livros para ele. O amigo sugeriu a venda dos exemplares em algum sebo para fazer dinheiro. O Zé, mais que depressa, foi atrás. O colega letrado tratou de arrumou uma mala velha, ajeitou os livros e a entregou para o Zé. Uma amiga minha, que estava numa situação parecida com a sua, vendeu umas coleções e conseguiu R$ 400,00.
Entusiasmado, ele foi direto para o sebo no centro da cidade. A gente não dá nada por esse tipo de livro, ouviu decepcionado. E lá se foi o Zé de volta com a mala que, naquela altura do campeonato, pesava três vezes mais. Desfilando no Calçadão, rumo ao Terminal Urbano, o Zé ainda enfrentou o vexame: o zíper da mala, todo enferrujado, não suportou o peso dos livros.
O Zé teve que recolher os exemplares que se espalharam pelo chão, sob os olhares surpresos de quem passava pelo Calçadão. Teve vontade de meter o pé na mala e sair correndo, deixando toda vergonha para trás. Lembrou-se da boa vontade do amigo letrado, contou até dez e manteve a calma. Depois de ajeitar os livros, a saída foi carregar a mala na horizontal. E lá se foi o Zé com a dita cuja sobre a cabeça.
O zombador incorrigível teve seu dia de inglória e pôde sentir na pele o gosto das inúmeras brincadeiras feitas com as desgraças alheias. No curto percurso até o terminal enfrentou olhares e comentários. Nunca mais mango de ninguém. Agora sei o quanto é duro ter que ouvir gozação quando a gente é o motivo da piada, desabafou o Zé, depois de se sentir mais aliviado ao compartilhar o constrangimento com o dono do boteco da esquina, aquele metido a psicólogo.





