Pelo menos 42 adolescentes que cumpriam medidas sócio-educativas em liberdade ou semi-liberdade morreram em Curitiba e Região Metropolitana entre 1º de janeiro e 17 de outubro deste ano. São adolescentes que, além de não conseguirem voltar para a sociedade com uma nova oportunidade, morrem.
A maioria das mortes foi causada por execuções a tiros. A informação é de Sylnara Regina França Borges, psicóloga da Vara do Adolescente Infrator da Capital, que registra casos como o de Luiza (nome fictício), que teve seu filho, Paulo (nome fictício), jovem de 17 anos, assassinado com três tiros na cabeça devido ao seu envolvimento com o tráfico de drogas no município de Colombo (Região Metropolitana de Curitiba).
A psicóloga realiza o levantamento com base no sistema de dados da Vara. Todos os dias, Sylnara busca nos jornais nomes de adolescentes que morreram. Os nomes são confrontados com as informações do Serviço Funerário Municipal e com a base de dados da Vara. Este é o único levantamento realizado que contabiliza quantos adolescentes que cumprem medidas sócio-educativas morrem.
Foi pelo jornal que Luiza soube da morte de seu filho. "No dia 13 (de fevereiro deste ano), numa quarta-feira, eu estava de folga do trabalho e ele não tinha aparecido em casa. Comecei a passar mal, um aperto no coração e não sabia do que. Na quinta de manhã fui trabalhar. A menina (que trabalha com Luiza) estava com um jornal daquele dia e disse: ‘Tem um menino aqui no jornal que eu acho que é o Paulo"’, lembra a mãe.
De acordo com o levantamento de Sylnara, entre janeiro e novembro de 2005, 40 meninos e meninas que cumpriam medidas sócio-educativas morreram. Durante todo o ano de 2006, foram 54 jovens mortos e, em 2007, 38. "Eu vejo que o momento da violência e da criminalidade está ligado a uma série de coisas, desde a mídia que incentiva o consumismo", analisa.
Para ela, a principal fonte da violência é o uso de drogas. "O uso abusivo de drogas está ligado diretamente à desestruturação da família", aponta Sylnara. A Delegada do Adolescente, Aline Manzatto, acrescenta que a causa da morte dos jovens egressos também é o envolvimento com drogas. "Eu não sei a porcentagem, mas na questão das mortes são os adolescentes envolvidos com a droga. Ali o tráfico está muito envolvido mesmo", analisa.
Mobilização social

Não é apenas o Estado que deve atuar no combate à mortalidade dos jovens que cumprem ou não medidas sócio-educativas. Na opinião da secretária de Estado da Criança e Juventude, Thelma Oliveira, a união de forças dos diversos setores da sociedade pode reduzir índices nacionais em que 70% dos jovens morrem por uma causa evitável, as chamadas mortes violentas. Thelma cita ainda um levantamento da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), que mostra que 60% das vítimas de homicídio têm alguma relação com a droga.
"Nós, enquanto sociedade, conseguimos reduzir a mortalidade infantil, com a presença do Estado, de organizações. E agora nós estamos perdendo nossos jovens para o tráfico e essa não é uma situação que a sociedade tem que se acostumar, temos que reagir mesmo coletivamente e com a indignação necessária para que a gente consiga intervir de fato nessa situação", afirma.
A Sesp foi procurada pela Reportagem, para que o secretário Luiz Fernando Delazari comentasse o assunto, mas a FOLHA foi informada que ele não poderia atender ao pedido de entrevista.

mockup