Francisco Pereira, 83 anos, tomou a esposa Ana Luiza, 91, nos braços e a levou de volta para casa. Mas aquela já não era a mesma moradia que eles deixaram há dez dias, assentada com barro e onde só havia uma cama e um fogão. O quarto ganhou armário e televisão. A cozinha tem mesa, cadeiras e um rádio. O banheiro, novas louças e um chuveiro com água quentinha para aliviar o frio do inverno que chegou. Na área de serviço, uma máquina de lavar roupas e um sofá. ''Não é só minha, é tua também'', comemorou Francisco.
Depois de duas semanas de trabalho, voluntários do Projeto Onde Moras terminaram a reforma na residência do casal, que há 11 anos vive na Rua Odete Dias Santana, no Jardim São Jorge, Zona Norte de Londrina. E ontem foi o dia de devolver a chave da casa aos donos. ''A reforma vai dar mais dignidade ao casal, nem que seja no término da vida deles'', justificou o engenheiro Maurício Costa, coordenador do Onde Moras.
Construída com recursos obtidos em bazares beneficentes, realizados a partir de doações de mercadorias apreendidas pela Receita Federal, a casa de Francisco e Ana Luiza é mais uma das 260 moradias erguidas a custo zero pelo Onde Moras nos últimos três anos. Segundo Costa, o casal foi escolhido pelo líder comunitário, que descobriu que eles viviam em condições sub-humanas há pelo menos seis anos. ''Eles são um exemplo. Mesmo vivendo sem conforto, nunca deixaram de se amar, de se chamar por meu bem, meu amor'', comentou o engenheiro, lembrando que nos próximos dias outras três casas serão entregues pelo projeto no mesmo bairro.
Ana Luiza já não ouve nem fala muito bem e é Franscisco quem mais comemora a nova casa, sem largar das mãos da esposa. ''Eles estão perguntando se você gostou da casinha'', questionou ele, enquanto estavam sentados ao sol, no sofá novo. ''Tá bom'', ela respondeu, envergonhada.
''A casinha era feita com pedacinhos de tábua e quando chovia dentro, fazia frio. Também tinha muito rato'', descreveu Francisco. ''Não tinha nada e hoje transbordo de alegria porque vocês enxergaram que eu estava na caverna'', declarou Franscisco, que ganhou ânimo para viver outros 83 anos. ''Vamos ficar aqui embaixo até o dia em que Jesus vier buscar a gente'', brincou.
Sem condições de cozinhar ou cuidar dos afazeres da casa pela idade avançada, o casal depende da ajuda da vizinha Adeilda Alves, que além de cuidar dos três filhos pequenos, arranja tempo para atender Francisco e Ana Luiza. ''Um dia vi que a coberta deles não era lavada há muito tempo e resolvi lavar. Daí em diante comecei a ajudá-los. O que eu posso fazer eu faço'', disse Adeilda, que recebe uma pequena quantia do casal pelo trabalho prestado.
''Uma sobrinha da dona Ana é quem cuida da única aposentadoria que eles recebem. Ela compra os alimentos e me paga para cozinhar e limpar. É pouquinho, mas ajuda, porque a minha família também não tem condições'', contou Adeilda. ''Somos mais que vizinhos, somos uma família. Eles são como pais para mim.'', confessou.

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