Londrina - Os comportamentos que desenvolvemos para lidar com as situações do dia a dia, tanto no que se refere à interação com outras pessoas ou ao enfrentamento de alguns problemas, podem ser descritos como habilidades sociais.
Apesar de serem desenvolvidas ao longo da vida, é na infância que elas dão os primeiros sinais, dentro do contexto familiar e, consequentemente, em outros ambientes de frequência, como a sala de aula. Essa afirmação é feita pelas psicólogas londrinenses Gisele Bueno de Farias, mestre em Educação, e Cintia Cristiane M. Bobroff da Rocha, especialista em Saúde Mental e Psicologia Organizacional.
A questão foi despertada por elas a partir das experiências em consultório. "É comum os pais se queixarem das dificuldades dos filhos em expressar os sentimentos, de interação com outras crianças, de civilidade e até mesmo de comportamentos de agressividade. A partir dessa constatação, estudamos o tema e formamos um grupo com crianças de 6 a 10 anos", comenta Gisele.
De acordo com a profissional, se não for desenvolvido um repertório de habilidades sociais na infância, é bem possível que haja interferências na vida adulta, como no relacionamento amoroso, vida profissional e até mesmo em comportamentos de assertividade e de empatia.
Para entender melhor o que são essas habilidades, Cíntia explica que elas compreendem tanto a área de comunicação, como, por exemplo, fazer questionamentos e dar respostas, quanto na questão de expressão de sentimentos, identificando e reconhecendo os próprios sentimentos e os de outras pessoas.
"Há também as habilidades de civilidade, que se referem ao modo de se apresentar, de se socializar. Não podemos considerar que se trata apenas de uma questão de personalidade, por exemplo, de timidez. Em muitas situações, a criança não sabe mesmo agir porque ela não teve um modelo antes, o que é um reflexo da falta de repertório de habilidades. Em alguns casos, ela pode responder até com um comportamento agressivo", comenta Cintia.
Outra habilidade apontada são as acadêmicas. Elas definem a interação com o professora e com outros colegas. Segundo as especialistas, estudos revelam que habilidades acadêmicas estão relacionadas a um bom rendimento escolar. Isso significa que se a criança tem boas interações, relações e sabe fazer perguntas e responder, terá um melhor rendimento.
Aliás, o ambiente escolar é onde se pode perceber um comportamento diferente da criança, além é claro do contexto familiar. "Não podemos generalizar, mas uma das formas dos pais perceberem é diante de alguma dificuldade do filho em fazer amizades e de aprendizado. Se ela tem dificuldade em expressar os sentimentos, ela expressará de outra forma, como, por exemplo, com o excesso de choro. Sempre vai haver um indício e geralmente é na fase pré-escolar, a partir dos 6 anos", observa Gisele.
Porém, é preciso sempre ponderar. Os pais devem considerar essas dificuldades quando elas trazem alguma consequência que não é legal para a criança, e com isso, ter a consciência de que podem fazer algo para ajudar. Para a psicóloga Cíntia é fundamental, nessa situação, melhorar o vínculo afetivo. "Por falta de tempo, muitos pais deixam de brincar com crianças. A questão do brincar é importante também para a questão de seguir regras, do que é aceito ou não. Além disso, é importante falar dos sentimentos, principalmente quando algo não está bom, pois se os pais não falam, a criança aprende que também não deverá falar, pois ela tende a seguir um modelo. Vale muito aprimorar a comunicação entre a família", diz.
Nessa conversa, também é importante estabelecer uma comunicação mais positiva. Isso significa, segundo Gisele, que os pais devem ser mais participativos na vida dos filhos, mostrando interesse nas coisas que o filho está desenvolvendo na escola ou em qualquer outra atividade. "A criança aprende pelo modelo, pela observação e pelo contexto em que vive. Ela vai desenvolver esses repertórios de acordo com o que o ambiente proporciona a ela."
Apesar de cada caso ser individual e pessoal, em muitos deles os pais podem agir. Quando as medidas não surtem efeito, é preciso buscar ajuda profissional. A questão é que quanto mais cedo essas dificuldades serem identificadas, melhor a resposta. "Muitas vezes para o adulto é mais difícil assumir o problema, aceitar que há uma dificuldade, além de haver muita resistência. Já a criança não, ela deixa a gente perceber isso. A resposta na construção desse repertório pode ser mais rápida", conclui.

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