O tempo nem sempre cura as feridas da violência
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de março de 1997
Da Redação 
As duas principais violências físicas que um ser humano pode sofrer são estupro e sequestro; seguidos de perto pelo fato de ter presenciado o assassinato de uma pessoa querida. Os traumas e sequelas podem durar anos, ou atormentar as vítimas pelo resto de suas vidas. As afirmações são da psicóloga clínica Nione Torres, mestre pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas (SP) com uma tese sobre Desordens do Pânico.
Segundo ela, os sintomas apresentados pelas vítimas estão subdivididos em dois grupos de comportamento principais: expressivo (medo, raiva, choro, ansiedade) e controlado (no qual a pessoa exterioriza uma aparente calma interior). Emocionalmente, as vítimas passam por duas fases básicas: desorganização (pesadelos, sobressaltos, falta de concentração, insônia) e reorganização (mudança de endereço, troca de número do telefone, insistentes leituras sobre o tema).
A pessoa que sofre algum tipo de violência, principalmente as mais brutais, muda a forma de ver o mundo e de ver a si própria, comenta Nione Torres, que é professora aposentada da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A forma como a vítima vai reagir depende da sua estrutura emocional anterior. Pode se recuperar em poucos meses ou nunca mais. Ao contrário do ditado popular, o tempo não cicatriza todas as feridas. A vítima nem sempre fica totalmente curada.
A psicóloga explica que as vítimas de violência estão enquadradas numa categoria de diagnóstico conhecida como Distúrbio de Estresse Pós-Traumático (DEPT).
Na fase logo após o ato de violência - de desorganização - a vítima geralmente passa por três formas de comportamento. Na primeira, ela passa a reviver constantemente o evento através de sonhos e pesadelos, e de imagens enquanto acordada; ou, como autodefesa, apaga da memória aquele momento. Na fase seguinte, a vítima fica ansiosa, não consegue dormir naturalmente, se torna passiva e evita o local, as roupas, os objetos e tudo que permita lembrar a violência.
Na última fase, a pessoa passa pelo entorpecimento. Ela se aliena, se distancia das pessoas e da sociedade. Muitas vezes, no extremo, ela perde a capacidade de amar novas pessoas. Perde o prazer de viver e parece estar sempre desligada, mutilada pela dor que sente, diz Nione Torres. Além dos traumas emocionais, há também consequências físicas como alterações no apetite, emagrecimento, queda de cabelos e taquicardia.
(Osmani Costa)


