''E atenção!'', interrompeu o locutor da TV tirando do ar a novela que dona Esmeralda assistia. ''A polícia acaba de prender uma dupla de assaltantes que utilizava dois cães da raça rottweiler para fazer assaltos. Pegos em flagrante, os ladrões soltaram um dos cães contra os policiais que, sem outra alternativa, atiraram. Um dos cães acabou morto e os ladrões foram levados para a delegacia. Teremos informações mais detalhadas sobre o caso no jornal da oito'', encerrou o locutor.
''Meu Deus!'', reagiu dona Esmeralda, olhando para o seu cão vira-latas de nome Rex que estava sentado no tapete da sala. ''Veja só, Rex. O cão, o melhor amigo do homem, servindo esses bandidos. Onde já se viu. É por isso que não gosto desses cães de raças estrangeiras com cara de mau. Ainda bem que tenho um cão atencioso, gentil e prestativo, né Rex?''
O cachorro abanou a calda e com a boca aberta, tal qual a um imenso sorriso, parecia orgulhar-se dos elogios da dona que voltou a assistir sua novela preferida. Rex, então, refletiu sobre o que acabara de ouvir. ''O que o melhor amigo do homem fazendo parceria com ladrões? Estão jogando a honra canina no lixo'', indignou-se, lembrando seus heróis caninos da TV. Como o nobre Rintim, amigo fiel do garoto Rust nos seriados de faroeste norte-americanos. E o que dizer, então, da Lassie, ah que garota, ou melhor, que cachorra bela, meiga e amiga dos humanos em todas as horas.
A novela chegara ao final e Rex ainda não conseguia parar de se lamentar. Quando dona Esmeralda se levantou para ir à cozinha preparar o jantar, deu um grito de espanto. Incrédula, ela não acreditava no que via. As pegadas de Rex, cheias de barro, deixaram imundo não só o tapete da sala como deixara suas marcas em toda a cozinha e na área. Sem pestanejar, a dona da casa deu um berro.
- ''Rex! Olha só o que você fez no meu tapete? Ah, seu cachorro malvado. É só a gente elogiar, que alguma coisa acontece. Vai já pra fora!
Sem titubear, Rex correu em disparada para o quintal, esperando não levar um vassourada da dona. Com o coração ainda acelerado, Rex voltou à realidade. Que mundo cruel, pensou, eu aqui condenando os cães estúpidos que ajudam bandidos e acabo enxotado de dentro de casa. ''Dona Esmeralda poderia ter mais consideração. Afinal, sou eu quem toda noite cuido da casa. Dou alarme quando tem gente rondando a casa. Precisa todo esse estresse só por causa de uma sujeirinha à toa! Nós cães merecemos mais consideração. Amanhã vou reunir a cadelada da rua e fundar o Sindcão para nos defender de qualquer maldade. Vamos exigir seguracão (seguro de vida), valecão (vale para refeições), previcão (aposentaria canina) e mais adicional por insalubridade. É isso, mesmo. Cães, univo-nos!''.
De repente, Rex ouviu seu nome ser chamado suavemente por dona Esmeralda. ''Rex, fofinho, vem com a mamãe. Desculpe ter gritado com você. Mas você mereceu, seu cãozinho danado. Vê se não apronta mais, viu? Vem cá, danado, olha só o que a mamãe fez pra você: um delicioso jantar.'' Sem pestanejar, Rex correu para sua dona e, claro, para o imenso prato de comida. Depois, já de barriga cheia, pensou: é melhor esquecer esse troço de Sindcão. Bem, pelo menos até a próxima bronca!

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