O sono difícil de quem dorme nas ruas
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terça-feira, 31 de julho de 2007
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Mesmo com vagas disponíveis nos albergues, há quem prefira dormir nas ruas geladas de Londrina em noites de inverno. Nem a temperatura de 5 graus registrada na madrugada de ontem intimidou pessoas como o curitibano José (nome fictício), 30 anos, ''morador'' de vias públicas na Zona Oeste de Londrina, ou Álvaro (nome fictício), 24 anos, que fez da Avenida Rio de Janeiro, no Centro, seu aposento oficial.
Avessos às regras das entidades que trabalham com moradores de rua, eles fazem parte de um grupo que se acostumou ao sereno, à dureza do chão, ao barulho dos carros, ao constante sobressalto diante do menor sinal de perigo. De acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social, a cidade possui ''uma média de oito pessoas'' que resistem a qualquer tipo de encaminhamento do Poder Público.
''Gosto da rua. Aqui você não esquenta com nada, tem sua liberdade'', justifica José, que veio da capital paranaense há dois anos e fixou-se em uma praça de bairro nobre na Zona Oeste. Ali ele passa boa parte do dia e, quando bate o sono noturno, busca abrigo junto a uma lanchonete da Avenida Maringá. De quebra, ganha sobras de lanche.
Já Álvaro, o morador do Centro, diz que não gosta da vida que leva, mas menos ainda dos albergues. ''Já passei por todos. É muita gente junta, incomoda. Vou de vez em quando para tomar uma sopa e já caio fora'', conta o jovem, que não quis revelar seu nome. Morador de rua desde criança, ele diz ser impossível viver com a mãe, que é alcoólatra, e ressalta que não quer saber de abrigo provisório. ''Quero uma casa que tenha curso, escola, trabalho'', pede.
Para quem não tem uma lâmpada a apagar na hora de dormir ou uma cortina para abrir quando acorda, a rotina do sono é bem diferente. ''Guardo carros na (Avenida) Higienópolis e vou dormir umas 4 da manhã. Acordo às 11 horas, meio-dia, e procuro uma padaria. Geralmente arrumam um pão para a gente'', descreve Álvaro. De madrugada, a cama é a grelha que cobre as galerias subterrâneas - os andarilhos sabem, melhor do que ninguém, como é morno o vento que sobe através delas. ''A cobertinha também ajuda. O travesseiro é o braço.''
Na ausência de muros, portões e cadeados, a vigília é a única proteção dos moradores de rua. ''Tem que ficar esperto, porque o mundo é cruel. Meu único amigo nessa vida é Deus, que me livra dos perigos'', exalta José, contando que nunca foi ferido em Londrina.
Apontando para o mar de prédios ao longe (''lá é o Centro, não?''), o curitibano diz que ouviu histórias de moradores de rua assassinados a pauladas perto do Terminal Central e que, por isso, acha mais seguro ficar no bairro. Em Curitiba, ele sofreu um atropelamento que o deixou com cicatrizes em todo o corpo. ''Aqui é mais sossegado. Não ganho muito dinheiro, mas sempre consigo comida'', observa. Álvaro também ressalta a generosidade dos londrinenses, que lhe garante o que comer, mas prova que na rua ''é a lei da selva''. ''Essa noite roubaram meus tênis enquanto eu dormia'', lamentou, descalço.


