Longe é um lugar que de tão longe pode ser indefinido até pela arte da palavra - ainda mais quando quer dizer onde uma pessoa sonha chegar. O garoto Everton Aparecido Colasso de Góes, 14 anos, não sabe disso e nem lhe interessa saber, mas numa aventura, que não se recomenda a outros adolescentes, deixou sua casa no bairro Guaíra, na periferia de Ponta Grossa (cidade pólo), para tentar ir de avião à casa de uma suposta tia em Paranaguá (cidade pólo/Litoral). Detalhe desse roteiro: a tentativa do embarque clandestino numa aeronave aconteceu no Aeroporto de Londrina.
Com outras histórias de fuga, Everton foi surpreendido por seguranças do aeroporto na quarta-feira, à noite, embaixo de um avião.
Os seguranças comunicaram o Conselho Tutelar, que o conduziu para um abrigo até ser embarcado para a cidade de origem.
Essa aventura de cerca de 300 quilômetros até Londrina não é a primeira do garoto, que foi parar em Criciúma (SC) na expectativa de visitar o parque do Beto Carrero.
Não dá para saber se tudo o que conta aconteceu ou se está tecendo na pouca prosa que tem, mais um fio de imaginação que o levará à viagens e personagens que nunca saberemos se são reais.
Mas dessa molecagem para voar, os conselheiros tutelares confirmam o vôo rasante do menino pelo perigo, pulando o alambrado que cerca o aeroporto, se escondendo no trem de pouso de um avião.
Até ganhar a pista do aeroporto, a viagem começou três dias antes em Ponta Grossa ao pegar um ônibus com destino a Imbaú (104 quilômetros ao norte de Ponta Grossa).
''Pedi para uma senhora pagar a passagem para mim'', contou.
A versão do garoto inclui dormir dentro do ônibus, em caminhonete, pedir comida, com um desembarque à noite em Londrina.
''Aqui conheci um homem que ia para o aeroporto. Pedi para me levar lá. Fomos a pé'', é o pouco que se consegue extrair do ''fujão'', conhecido pelo Conselho Tutelar de Ponta Grossa por outras escapadas.
Everton disse que estudou somente até a terceira série do fundamental. Sobre a mãe, a conversa só evoluiu para a profissão, que afirmou carpir quintais. O pai disse que mora em Curitiba. Irmãos são dois. Se tem problemas em casa? A resposta foi um longo silêncio.
O roteiro improvável para chegar à casa da tia em Paranaguá, o colocou longe demais do destino. Porém, à pergunta sobre o que o motivou a querer ir de avião, a resposta era sempre a mesma: ''Queria ir para a casa da minha tia''.
Everton não confirmou ou negou o sonho de querer voar. A imaginação que o ''expulsou'' de casa não conseguiu fazer com que explicasse como acreditava ser uma viagem de avião.
Mas ao final da entrevista, deixou escapar a explicação sobre o porquê de correr os riscos para ganhar o ar. ''Juntei um dinheiro para comprar passagem e achei que a do avião era mais barata, que a de ônibus''.
O presidente do Conselho Tutelar Centro, Idalto José de Almeida, garantiu que Everton não se enquadra no perfil de adolescentes envolvidos com o tráfico de drogas ou que fogem de casa para mendigar.
''Esse afro-descendente construiu um sonho com essa viagem, que era o de ter uma família melhor, talvez na busca pela tia, viajar de avião...'' - avaliou o conselheiro, enquanto Everton pousava para a foto ao lado da aeronave, que não conseguiu viajar.

mockup