O sonho acabou
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de maio de 2001
Walter Ogama 
Se fosse o tempo do ouro verde, quando os cafezais do Norte do Paraná ainda cacheavam dinheiro, bem que se poderia dizer que o fulano era, no mínimo, um bom administrador de fazenda de café tentando gastar um pouco do que lhe cabia após a comercialização da safra. Verdade seja dita, agora, entre o fim do outono e a aproximação do inverno, já com o frio arrepiando a espinha, dizer que alguém está usufruindo do fruto que os cafeeiros rendem é ignorância pura. Primeiro porque não se colhe agora, segundo porque café, principalmente nos últimos dias, não tem sido motivo de euforia para produtores e negociantes por causa do preço.
Mas o fulano, com uma calça branca entre social e esporte, botinas pretas engraxadas com zelo e camisa de um azul meio furta-cor, de viscose ou, quem sabe, seda, era o retrato do pessoal dos tempos antigos, quando o campo dava dinheiro e famílias inteiras aproveitava uma folga e subiam para as compras na cidade.
Olha, amigo. Tem uma monte de coisa boa nesta cidade. Tem que ver o que o senhor prefere.
O taxista, pelo jeito, era novo na profissão e até na cidade, apesar da
meia-idade estampada no rosto.
O que eu tô falando é daquelas coisas, de antigamente. O bão mesmo, muita diversão. Dinheiro hoje eu tenho.
Mas nada. O taxista não era mesmo dos bons tempos. Seu sotaque denunciava ser de fora e, conforme se soube depois, havia vindo do Rio de Janeiro há menos de dois anos e, aqui, resolveu ser taxista.
Um cineminha? Ou o senhor prefere um shopping?
Não, cinema não. Chope sim. Onde tiver chope serve.
E o taxista seguiu com o seu passageiro. Levou o matuto para uma lanchonete, onde o fulano, meio que perdido, mal engoliu um copo de cerveja e foi embora frustrado. Dormiu numa pensão de preço econômico nos arredores da Estação Rodoviária e nem perdeu sono para pensar que, hoje em dia, a cidade cresceu e a cultura sofre mudanças. O lugar bom que ele imaginava ainda existir em Londrina, com cerveja, cachaça, mulheres e música sertaneja, a cidade engoliu.


